POR INCRÍVEL QUE PAREÇA, NOSSA CIDADE TEM PÁSSAROS!

Muitas vezes, ao andar pelas ruas de São Leopoldo, cidade próxima trinta e cinco qulômetros do cento de Porto Alegre, Estado do Rio Grande do Sul, – quando andamos pela cidade, eu e minha esposa nos admiramos por ver quantas árvores há nas calçadas. Para mim isto é quase comum, pois nasci e cresci aqui em um tempo em que havia muito mais. Entretanto, para ela isto é admirável, pois cresceu em Canoas, próxima uns cinco quilômetros da Capital, no bairro Rio Branco, onde as quadras têm “quase uma légua” que o caminhante palmilha sob o “torreirão” do sol no verão. De mãos dadas em nossas caminhadas ocasionais, algumas vezes nos admiramos também ao ver casas em cujos terreiros não se vê uma árvore sequer e ficamos a imaginar como seus moradores suportam o calor do verão. Contudo, em nossas trajetórias, comumente vemos muitas árvores e até caminhamos sobre tapetes de pétalas amarelas e rochas dos ipês, além de vermelhas e brancas de outras árvores na primavera e sobre dourados tapetes de folhas de plátanos no outono. Em nossa rua, por sinal, muitas casas têm muitas árvores, sendo que alguns desses pátios até lembram florestas e jardins encantados. Aliás, em São Leopoldo a maioria das ruas é bem arborizada e algumas dessas árvores abrigam tantos pardais que até já vi comerciantes da rua principal que se incomodam com seu ruído e dejetos.

Na calçada da esquina de um colégio, quase à frente de onde moramos no centro da cidade, há algumas árvores bem altas e frondosas sob as quais os jovens estudantes gostam de assentar-se nos intervalos dos períodos. Porque eu observara em anos anteriores que ao entardecer as árvores da Rua Independência (conhecida popularmente como Rua Grande) enxameavam de pardais, pensava que eles ocupavam qualquer árvore de igual espécie. Entretanto, ao passar outro dia pela esquina do colégio a frente de onde moramos, ouvi o burburinho de pardais a se aconchegar para o pernoite. Pensei que seria assim também nas outras árvores da rua que ladeiam o caminho à fente. Entretanto, andei mais duas quadras sob muitas árvores idênticas as da Rua Independência e não ouvi qualquer ruído das aladas criaturinhas.

Quando morávamos num bairro próximo ao Centro, por causa das copadas árvores a frente de nossa casa e das tantas árvores frutíferas no terreno dos fundos, comumente acordávamos com o entusiasmado cantar de um sabiá do peito amarelo que entoava suas lindas melodias mesmo em madrugas chuvosas e frias. E na rápida caminhada que empreendia até o trabalho no centro, eu via pelo caminho muitos outros sabiás, além de vários outros passarinhos a entoar alegremente suas canções entre os galhos de tantas árvores.

Hoje pela manhã, enquanto abria o portão para vir ao trabalho, alegramo-nos, eu e minha esposa, ao ouvir a melodiosa conversa entre diferentes passarinhos que pulavam de galho em galho nas copas das árvores na esquina do colégio à frente de nossa casa. E, ao dobrar a esquina, caminhando sob as árvores bem copadas daquela quadra na rua transversal, pude desfrutar do melodioso burburinho de tantos outros pássaros, entre eles também um afinado sabiá.

Se tivermos mais árvores nas cidades, desfrutaremos muito mais do prazer de ouvir os passarinhos com seu gorjear alegre em muitas horas do dia, mesmo que moremos em cidades com mais de duzentos mil habitantes, como é o caso de São Leopoldo, onde há muitas árvores, mas faltam muitas mais.

Wilson do Amaral