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O ASSASSINATO DE ALFREDO

                         
                                    O ASSASSINATO DE ALFREDO
                         
                                     Maria Teoro Ângelo
 
         Dentro da comunidade felina, Alfredo não era fulano ou sicrano. Era bichano. Não tinha pedigree, mas tinha nome de gente, casa e comida. Desde que nasceu morava conosco. Vivia da porta para fora, desfrutava do gramado, da  sombra das árvores, dos muros e do telhado. Quando muito, dormia sob a mesa da varanda. Se teimasse em entrar em casa, bastava bater o pé com força que ele entendia e se afastava.
         Toda sobra de carne crua tinha dono e ele passava bem. Tinha leite todos os dias e comida  especial. Levava uma vida de rei. Alfredo era um gato gordo e preguiçoso. Como comia bem, não devia caçar os ratos que apareciam no quarto de despejo nos fundos do quintal.
          Um dia devorou nosso pássaro-preto de estimação. Foi perdoado, pois o pássaro facilitou. Em vez de ficar na gaiola, ia brincar no chão. Instinto é instinto e Alfredo às vezes punha em funcionamento o seu.
         No mais não tínhamos queixa. Bicho silencioso, só miava quando ouvia o barulho da faca sendo amolada. Sabia que seu banquete estava vindo. Fora os sustos que levava quando alguma visita trazia um cachorro, Alfredo passou a vida sem fazer força. Não fugia de casa e nem se enturmava com os outros gatos vadios. Se sumia de nossas vistas, era só chamá-lo pelo nome e ele vinha correndo, pulava o muro e ficava à disposição. São coisas com as quais a gente se acostuma, ainda mais quando se é criança.
       Gato tem sete vidas, mas não é imortal. Alfredo foi ficando velho e doente. Fazia uns barulhos estranhos, uma espécie de tosse e, mesmo sem veterinário, percebemos que ele ia morrer.
         Meu tio farmacêutico trouxe alguns remédios, que misturávamos ao leite. Alfredo pouco comia e bebia. O sofrimento do gato era tanto, que meu pai e meu tio resolveram envenená-lo. O veneno foi posto dentro de uma bola de carne moída e colocada no prato de comida de Alfredo. Naquela noite ninguém dormiu. Uma atmosfera pesada caiu sobre nós e eu senti a primeira grande aflição da minha vida. Com certeza ele amanheceria morto.
         A gata, mãe de Alfredo, que tinha sido nossa e se chamava Anastácia tinha chegado alguns anos atrás trazendo os filhotes na boca e, um a um, trouxe todos. Era gato demais e resolvemos doar os gatinhos para uns comprades que moravam num sítio. Mas para nossa surpresa, no dia seguinte voltou um, o Alfredo, cansado e faminto. Sinal do destino, nós o acolhemos e cuidamos dele. Foi assim que ele começou a ser nosso.
       Agora Alfredo deveria novamente desaparecer, porque havíamos decidido que deveria. Quando levantamos muito cedo, a bola de veneno tinha desaparecido do prato e tudo parecia consumado. De repente Alfredo miou. Que alívio, ele estava vivo.
       No meio da noite, meu pai tinha se levantado e retirado a bola. Alfredo era um bicho, mas matá-lo excedia os limites de sua coragem. Nosso gato ainda viveu um bom tempo. Chegamos a achar que ele havia se curado, mas a doença voltou mais violenta e fatal.
       Alfredo está enterrado sob um pé de bouganvilles avermelhadas.
Lillyangel
Enviado por Lillyangel em 29/08/2010
Código do texto: T2466723
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre a autora
Lillyangel
Ituverava - São Paulo - Brasil
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