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MEDO DE AVIÃO



Há dias aqui em casa, não se fala em outra coisa, qual seja a viagem que vou fazer amanhã a Buenos Ayres, desde que meu cunhado ligou fazendo o convite. Mesmo diante do medo que me assola, topei.

Não é sempre que se recebe um convite igual a este. Como o pânico habita em mim, já comecei desde já a me preparar para agarrar as asas de Ícaro. Fico pensando com meus botões: eu, particularmente, considero numa viagem o tempo que se gasta em ônibus, se comparado ao transporte aéreo. Não dá nem para por em discussão. Todavia, se houver qualquer probleminha, não há muito o que fazer.

Um amigo piloto, diz que o perigo dos aviões está em terra – decolagem e aterrissagem.
Concordo. É um frio mórbido na barriga.

Primeiro penso, que avião voa contrariado. Faz uma força miserável para sair do chão. Aquela mudança no ronco do motor, é sinônimo de pavor para mim. É como uma britadeira no estômago. O coração vem à boca. Isso é coisa de gente da roça, mamãe, dizem meus filhos. Tem de vencer isso. Mas não é.


Isto não quer dizer que não vá, vou com medo, mas vou. Recentemente viajei e observei a tripulação. As aeromoças acostumadas à viagens, abaixaram as cabeças, puseram as mãos no queixo como que rezassem e tudo era silêncio. Só ouvia-se o ronco dobrado o motor, a velocidade aumentando e o avião ganhando o espaço. Parei de respirar. Não adianta, entro em pânico, tenho pânico daquele "negócio".


Naquele momento compreendi Oscar Niemeyer, Beth Orsini e outras pessoas, que têm pavor de aviões. Estou com  elas. Tenho horror. Muitas vezes, quando trabalhava na Secretaria de Estado, anos atrás, declinava das viagens. Minha equipe adorava. Sempre ia uma em meu lugar. Quis enfrentar, porque  o gosto pelo desafio é maior que tudo. Também nunca admiti passar pela vida e deixar de vivenciar algo. Experimento, nem que seja bêbada rs.

 
Voltando ao convite, o mesmo teve uma razão evidente. Minha irmã é muito pior que eu se há espaço para ter mais medo. Ontem me ligou dizendo "acho que não vou ..." Eu dei a maior força. Que isso? Já fiz as malas. Está doida?Rs

 Vou levar sua irmã, deve ter dito meu cunhado e aí ela deve ter aceitado, sinalizando com a cabeça, se bem a conheço.
Mal sabe ela, (pior que sabe) que seremos duas a ter medo.

Não durmo no dia que antecede, muito menos ela, essa coisa deve ser de família. É a única situação em que me vejo desanimada. Nem banho de sal grosso dá jeito. Sou otimista de nascença. Raríssimas coisas são capazes de me tirar o humor. Sou alegre, feliz, sempre fui. Mesmo que a vida me apronte. Entendo e recebo-a como dádiva e costumo dizer que “o que vier, eu traço”. E ela tem aprontado algumas. Mas se tratando de avião, é diferente. Até vou, como disse, pelo tempo ganho e “empurrada” pelos amigos ou talvez mesmo para enfrentar o medo, vencer desafio. Só por isso.


Nem sei se vale à pena. Creio que perco uns cinco anos de vida nestes momentos, quando não estou podendo perder nada. O tempo já faz isto todos os anos. Não adianta beber como fazem alguns, nem tomar tranquilizante. Nada adianta.

Como quem tem medo dizem que atrai, sempre faço conexões não previstas por mim. A chuva aparece, turbulências e o piloto ainda quase perde a pista. Pista curta, (parecia esburacada tanto que sacudia) de Porto Seguro.

Realmente, viagem de avião, só para ganhar tempo. Não sei como pode alguém gostar desse "troço".

Cada dia convenço-me, que voar, é habilidade dos pássaros. Aos homens, Deus não deu asas.
E vou nessa. Deus nos ajude. Dia 8 estarei de volta. Mas tão cedo não quero ouvir falar em avião.
Ando mesmo precisando ouvir uns tangos, dar uma espairecida...A vida anda meio dura.

 
Até breve! Como disse Miguel Jacó, meu coração fica aqui.

Beijos.
 
 
 

Elen Nunes
Enviado por Elen Nunes em 01/09/2010
Código do texto: T2472431

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Sobre a autora
Elen Nunes
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 71 anos
511 textos (34438 leituras)
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Elen Nunes