Um flagrante na noite

Noite alta, me deito pra dormir, após ler alguma coisa e ver na TV as últimas notícias da noite. Muito calor, mas o sono chega rápido. Porém um pernilongo atrevido ousa zunir perto de meu ouvido. A colcha voa pelos ares. Será que acertei-o? Putz, posso perder o sono.

A noite está escura, todos já dormem, menos eu. Silêncio quase total.

Viro para um lado, para o outro. Pernilongo de novo atazanando. Dessa vez é um travesseiro voando pelos ares se fazendo de munição. E mais uma vez erro o alvo. Ele deve dar altas gargalhadas pela minha pontaria míope.

Fico quieto. O bicho está ensandecido e volta a atacar. Dessa vez vai de mão mesmo. Mas sinto apenas um poderoso tapa em minha propria testa. Nada de assassinar o inconveniente inseto. Juro que um tabefe dessa proporção, se fosse de outra mão que não a minha, seria motivo de conflito severo e até assunto de polícia.

A noite vai ser longa.

Já totalmente desperto, lembro-me de um doce na geladeira. Um assaltozinho inocente não faz mal. Me levanto no escuro, saio descalço e sorrateiro pra não acordar os viajantes pelo mundo do sono.

Sem ligar a luz, abro mansamente a geladeira. Começo a salivar. É o sabor do pecado. Uma colher é cheia de néctar dos deuses. Fecho a geladeira.

Ao direcionar meu doce à boca, o mundo se acende, o sol brilha na noite silenciosa da cozinha. É minha filha que acordou e acendeu a luz, me surpreendendo por praz.

- Pai? Assaltando a geladeira no meio da noite? Que coisa feia!

Nem tento me explicar. Sei que não conseguirei. Mas aquela colherada de doce será degustada lentamente e merecidamente.

Sinto um beijo gostoso no rosto. – Boa noite, pai. Assustei-me com o barulho. Acaba logo esse doce e vai pra cama, tenta dormir. Te amo, viu!

- Boa noite, querida! Eu te amo!

Mulher tem uma sensibilidade!! Não desliga nunca? Eu juro que não fiz barulho nenhum. Como pode?

Faria Costa
Enviado por Faria Costa em 23/09/2010
Reeditado em 23/09/2010
Código do texto: T2515555
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