O Buraco em Alta Definição

Não sei como aconteceu, mas quando dei por mim estava pulando a janela do apartamento em direção ao buraco. Logo me vi com uma caixinha preta na mão amarrada por um longo fio branco circulando por entre caixa d’águas escurecidas pelo tempo, por estarem ali há pelo menos quarenta anos, e andando por um chão coberto de limo e excrementos de pombos. Olhando para o céu em busca do sinal!
 
Não! Eu não estava no Umbral! Não! Não foi uma tentativa de suicídio! Estava mesmo à procura do famoso sinal da televisão digital e minha caixinha preta era supostamente uma antena “interna” que não funcionou, o fio branco era um cabo que ligava a caixinha preta a minha esperança de enfim parar de assistir as pessoas esticadas demais, ou gordas demais, ou baixas demais na minha televisão de LCD.
 
Talvez tenha sido levado pelo alto nível de testosterona, ou talvez pelo instinto masculino adormecido de exercer o papel de homem da casa, afinal aquilo era uma tarefa de homem! Não sei ao certo, mas a teimosia não ia me fazer desistir de meu objetivo e estava decidido a enfrentar todo e qualquer obstáculo para atingir meu objetivo.
 
Mesmo consciente de que a missão de achar algum sinal no fundo do buraco seria muito difícil, baseado na experiência de que para ter que falar ao celular eu precise praticamente me pendurar na janela em busca do sinal perfeito, segui vagarosamente passo a passo vagando pelo buraco com o ouvido atento na televisão em seu volume máximo.
 
Vinte minutos depois e mais algumas topadas no dedão do pé, enfim achei o local ideal para colocar a minha caixinha preta. No batente, a sete centímetros da parede direita do basculante do meu banheiro, eu disse sete, não oito! Em linha reta a distância entre a antena e minha televisão não passava de quatro metros! Mas isso só se aplicaria na teoria, porque na prática teria que calcular o caminho mais curto, ou melhor, menos comprido pelos cantinhos das paredes internas do apartamento como em um labirinto. O resultado disso foi vinte e seis metros de cabos a serem pregados em rodapés, perfurando paredes, contornando portas, arrastando camas, pregando mais e mais e mais e mais e mais ganchinhos em rodapés, subindo pelas paredes em todos os sentidos, passando por janelas, contornando as paredes externas do apartamento até encontrar enfim minha antena interna, agora renomeada antena externa! Ufa! Consegui!
 
Feliz da vida, porém muito cansado, coloquei a televisão para fazer uma busca automática por todos os canais enquanto fui à cozinha pegar uma coca-cola zero com gelo e limão, e fazer um mega sanduíche para assistir a estréia da tão famosa televisão em alta definição!
 
Como assim só quatro canais? E porque a imagem está quadradinha? 
Depois de horas passeando pelo limbo, outras tantas agachado pela casa inteira martelando meus dedos e aqueles ganchinhos horrorosos pela casa inteira, tudo que eu consegui foi assistir Malhação na tela quadradinha? Espera aí...Deixa eu mudar de canal!... Putz! Piorou! Desgraça em alta definição ninguém merece! Desculpe Datena... Mudando de canal de novo!... Ai, não! Casos de Família! Desculpa Christina, mas problemas de família já bastam os meus! Vamos lá! Última tentativa... Último canal!... Ué? A Record não pega no buraco? Tela preta em alta definição? Melhor então eu desligar a televisão, assim economizo a energia!
 
Ganhei mais machucados em topadas vagando pelo fundo do buraco e martelando meus dedos ao invés dos maledetos preguinhos do que em canais digitais! Ninguém merece viu!!!


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Blog do Buraco por Ricardo Leão
Enviado por Blog do Buraco por Ricardo Leão em 04/10/2010
Reeditado em 05/10/2010
Código do texto: T2538229
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