TUCURUNDA

(Aconteceu n’um domingo)

TUCURUNDA

Quando morava em Campo Grande, capital do estado de Mato Grosso do Sul, encontrei-me com Rodrigo. Não o de Tucurunda, mas o real, fonte inspiradora da personagem do meu roteiro. Um menino pobre, com um brilho triste nos olhos, no meio de um shopping center... De repente me vi impelida a refletir, era um domingo em que os ônibus da cidade circulavam sem cobrar passagens, uma espécie de ‘brinde’ concedido pela prefeitura, e que acontece no último domingo de cada mês, o que nos remete a velha política do ‘pão e circo’, mas não vou aqui tecer argumentos a favor ou contra tal prática, esse é apenas o jeito que um menino da periferia mais periférica da cidade conseguiu de chegar ao shopping naquela tarde.

Roupinhas sujas, joelhinhos ralados, cheios de casquinhas, cabelos quase raspados, magro e pequeno; imaginei ter oito anos, à vera, na curta conversa que tivemos, descobri que tinha treze, um adolescente raquítico, mas só na estatura, não estava ali por acaso, premeditou aquele momento, esperou o último domingo do mês, reuniu forças, e ousou.

Ele não pensava em roubar ou pedir comida; mesmo acostumado a sentir a dor da pouca comida no estômago, diante do apelo era difícil controlar a vontade. Ah! Um sorvete, um hambúrguer, algodão-doce, refrigerante, pipoca, milk-shake; mas não, nada disso foi capaz de corrompê-lo; seu grande desejo, seu sonho, o objetivo que o levara até ali, era outro, inusitado, diante das circunstâncias, porém, arrebatador.

Armado com sua coragem se posicionou na entrada do cinema, e ali, diante dos cartazes ou na fila do caixa esmolou o bilhete tão sonhado, humildemente, contudo, com audácia.

Incrível como tanta gente consegue não perceber uma presença dessas. Rodrigo não se abalava diante das caras feias, mal-humoradas, indiferentes. Ele prosseguiu, e entre centenas de pessoas raquíticas espiritualmente, interessadas tão-somente em suas futilidades, três o ouviram apenas três, e atenderam a seu pedido. Saiu no lucro o menino, além do bilhete, pipoca, refrigerante, e uns trocadinhos.

Pressupõe-se que eu fui uma das pessoas que o ouviu, não pensem que nutro algum sentimento além da impotência, exatamente aquilo que Cecília sentiu ao interromper o sono daquele pobre cãozinho, “esta humana infelicidade de nem sempre poder socorrer, neste complexo mundo dos homens”, me senti inútil.

Mas, quase que como um consolo, sei também que nunca me esquecerei do Rodrigo. Consigo vê-lo encantado com os pássaros, boquiaberto com as árvores e com a cor do pôr-do-sol, hipnotizado com o brilho das estrelas e a brandura da lua, enquanto os outros meninos aprontam os estilingues e as pedras.

Guardarei para sempre em minha memória aquele olhar, impregnou-me; quando sinto pena de mim, consigo ouvi-lo, bem alto, foi assim que aquela voz, um misto de debilidade e fortaleza, passou a ser meu termômetro espiritual. Que lição me deu aquele menino.

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(Silvia Letícia-2005).

*Silvia Letícia (minha filha) atualmente, mora e estuda com sua família, em Québec-Canadá-outº/2010.

Nota: Autorizou-me a divulgação... Muito obrigada!

Narinha Lee
Enviado por Narinha Lee em 26/10/2010
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