AMARGA CONCLUSÃO

Ontem saí às ruas a deambular. Olhei rostos, examinei faces, percebi gestos e ações de muitos indivíduos.

Uns pareciam ausentes deste mundo, tão engolfados estavam em seus interesses; outros me afiguravam criaturas não pertencentes ao reino humano.

Apressados estes, indiferentes aqueles. Transeuntes nas vias de um mundo tão heterogêneo, tão incongruente...

Quedei-me em certa esquina melhor observando aquele amálgama de criaturas, cada uma demonstrando na face as possíveis disposições e anelos que lhes iam no íntimo.

Alguns exibiam rostos patibulares, de feições desagradáveis, portando, quem sabe, sentimentos ultrizes; outros, com expressões graciosas, pareciam preocupadas com algo que, certamente, situar-se-ia distante, tal a ansiedade que externavam.

Era um rebuliço na calçada em que eu estava...

Os seres procuravam, lépidos, um modo de mais facilmente transitar.

Ninguém olhava ao lado, para outras criaturas.

Semelhar-se-iam aquelas pessoas a variados espécimes desconhecidos entre si e que se evitavam.

À beira do passeio um mendigo estendia o chapéu,suplicando óbolos e ao mesmo tempo, exibia as pernas ulceradas.

Quase todos os indivíduos passavam ao largo, indiferentes. Vez que outra alguém atirava, com desdém até, uma moeda que, por certo, estaria a incomodar no bolso.

Um pouco além, um passante, demonstrando ser forasteiro, aproximou-se de alguém e pediu uma informação.

Porém, o interpelado aparentando pressa, e já em movimento, com o dedo aponta alhures, e segue adiante, deixando o solicitante com a informação a meio, pelo que se podia notar na expressão de seu rosto.

Por longos minutos estive ali, observando e tirando conclusões.

Depois de muito analisar, de perceber aqueles indivíduos, cheguei a terrificante conclusão: assemelhar-me-ia a muitos daqueles seres; agiria quem sabe, a exemplo de vários.

Naquele momento senti um forte abalo interior, tão intenso, o qual, todavia, desejei fosse exterior, a exemplo de um sísmico que fendesse o chão e este me tragasse.

Na hora tive vontade de que a morte, qual a Parca formidanda da mitologia, ali viesse e arrebatasse-me não sei para onde; talvez onde eu não pudesse perceber-me com um conjunto de idiossincrasias tão

rés-do-chão.

Entrementes, o mesmo abalo que produziu em mim estes pensamentos, despertou-me à realidade de que, não obstante a tudo, poder-se-ia acalentar um anelo: o de principiar uma luta titânica, sem quartel, contra as potências inferiores a estrugirem em meu íntimo, e que, nessa luta, por certo, ser-me-ia facultada a vitória sobre mim próprio.

Assim pensando animei-me, esbocei um sorriso, afastei-me cogitando no início, presto, da ingente porfia comigo mesmo, pois, naquele instante compreendi com maior precisão porque venerável sábio da antigüidade dissera: "conhece-te a ti mesmo...".

PEDRO CAMPOS
Enviado por PEDRO CAMPOS em 23/11/2010
Reeditado em 18/05/2012
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