ERA UMA VEZ...

Era uma vez, uma abelhinha cansada de sua faina diária: voar daqui para ali, aspirar o néctar das flores, transportá-los até a colméia, isto sistematicamente, todos os dias o ano inteiro, bradou, inconformada:

- Ora! Isto é um martírio!; esta rotina, este sacrifício! Trabalhar tanto para, no fim, o homem desfrutar do meu esforço! Que bom se eu pudesse ser de outro reino, ou até quem sabe ser humana...

Assim, daquele dia então, a abelhinha deixou de cumprir a tarefa que lhe competia e, revoltada, saiu a esmo, voando rumo a outros lugares.

Passou a observar, atenta, outros reinos da Natureza.

Na fauna percebeu, alarmada, o quanto muitas aves tinham que lutar para sobreviver. Inclusive viu, boquiaberta, a rapinagem existente neste reino: muitos pássaros comiam outros, desbragadamente...

- Isto não me serve - pensou, e seguiu adiante analisar.

Mais à frente, próximo a um bosque verdejante, olhou para grande rio onde se banhavam algumas capivaras e alguns jacarés permaneciam à margem a espreitar...

Pássaros pescadores aproximavam-se em vôos rasantes, abocanhavam um peixe e iam embora.

Ela olhou, olhou e concluiu, após largo tempo de observação:

- Vida como esta seria uma tortura infindável! Esta monotonia, esta expectativa... Nem pensar em ser deste reino quero...

E, prestamente seguiu rumo à cidade.

Sentou-se nos fios de uma rede de energia elétrica e pôs-se a espiar a movimentação na rua.

Carros em rápidas corridas; homens e mulheres velozes pelas calçadas.

A abelhinha passou a estudar várias pessoas e, após muito examinar, escolheu uma para seguir, a fim de tirar conclusões mais precisas sobre o reino humano.

O escolhido foi um homem de meia-idade, que dirigia um modesto carro.

Furtivamente ela entrou no veículo e ficou a espreitar.

Eram umas 18 horas, mais ou menos.

O sujeito dirigiu-se a um supermercado.

A abelhinha havia se escondido na aba do chapéu do homem.

Entrou com ele: nem este, nem ninguém a enxergava.

Dali viu quando o homem foi ao açougue, quando alterou-se com os funcionários a respeito de certas carnes.

Ouviu quando o sujeito comentou, reclamando, com uma senhora, a respeito do alto custo das mercadorias.

Percebeu os protestos dele a propósito da demora na fila do caixa, bem como da falta de troco que a servidora lhe alegou.

O homem saiu, entrou no carro, e a abelhinha a observá-lo...

Estava colérico e monologava consigo:

- Este governo é um desastre! Quando será que a gente poderá ter sossego? Quando nossos salários serão compatíveis com esta inflação?

A descontente produtora de mel, em ouvindo o rosário de intermináveis reclamações, que prosseguiu até quando o homem parou o carro defronte sua residência, inclusive sem entender o que seria a tal da inflação, voou para florido jardim e quedou-se a meditar:

- O reino humano ainda não me parece o ideal, porquanto os homens também comem outros animais, têm tantos outros problemas, tantas ansiedades, disputas, tantas anomalias; até essa tal de inflação... Pelo menos nada disso vejo em meu reino. O melhor é continuar ser abelha e prosseguir no meu trabalho, porque, parece-me grande vantagem viver fora deste reino dos seres humanos, por agora...

E assim, desistiu de revoltar-se com sua condição de servidora obscura, bem como de querer ser humana.

Moral da história: CADA UM CUMPRA O PAPEL QUE LHE CABE E FIQUE NA SUA... Por enquanto...

PEDRO CAMPOS
Enviado por PEDRO CAMPOS em 15/12/2010
Reeditado em 15/12/2010
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