CARRO DE BOI

CARRO DE BOI

Na fazenda Baía, Zé Carneiro, o nosso pai, escolhia bem os seus carreiros: Teopisto, Sô Juquita, Veloso, Chico Vicente, Zé Luquinha, João Crispim, foram alguns deles. O Zé Luquinha foi o que mais conviveu conosco. Os candeeiros de bois também tinham a sua importância, pois eram eles que de manhã, bem cedo, iam buscar os bois no pasto, enquanto o carreiro com um certo ar de superioridade, ficava no terreiro, sempre achando alguma coisa para fazer: preparar um canzil, um fueiro, emendar uma brocha, untar o eixo do carro com azeite ou banha sem sal, etc.

Logo que os bois chegavam ao terreiro, o Zé Luquinha, com a soga (corda que se amarra aos chifres) nas mãos, ia pegá-los. Os bois de coice, geralmente, eram levados para o cabeçalho do carro em que se colocava o pescoço entre os canzis, pois a canga já estava fixada ao carro.

Bois de carro que só faltavam falar eram o Figurão, o Passeio, o Fazendão, o Escovado. O Fazendão quando foi vendido para o corte, o boiadeiro que o comprou pernoitou em uma fazenda próxima, o que fez com que eu levantasse cedo, pegasse um cavalo e fosse vê-lo pela última vez... Eram todos o xodó do Zé Luquinha. Assim que as três juntas de bois já estavam no carro, o Luquinha subia ao cabeçalho, tirava o boné, fazia o sinal da Cruz e dizia:-" Deus adiante, Pai na guia e Nossa Senhora em nossa companhia. Vamos com Deus!" Nessa hora, o candeeiro Nego do Zé Lucas (irmão do carreiro) dava os primeiros passos com a guiada ao ombro e era seguido pelo Piano e o Palácio, os bois de guia. A partir dos seis anos, eu já dava uma fugidinha, acompanhando o carro, escondido do Zé Carneiro e da D.Cici. O Luquinha, a princípio, tentou impedir que eu subisse ao carro, mas depois fazia vista grossa. Às vezes dizia: -"Ocê pode ir, mas se cair do carro, o seu pai vai te dar umas palmadas e ainda vai brigar comigo".

Quando eu já estava com sete anos, de vez em quando, o Zé Luquinha me deixava "carrear", desde que o carro estivesse vazio. Mais tarde, sem que o pessoal visse, pegávamos um pouco de querozene que era colocada em um vidro e levada para o carro. Depois, já bem longe da fazenda, o Luquinha parava os bois com um solene “ôa!". Jogávamos um pouco do querozene no eixo do carro, apertávamos um pouco os cocões e, daí a pouco, o carro começava a cantar fino. O Zé Luquinha não se continha e também cantava:

" Alegria do carreiro é de ver o carro cantar,

uma junta de boi preto e outra de boi araçá."

Às vezes, o carro ficava cantando por muito tempo e o eixo começava a cheirar queimado. Era hora de parar o carro e passar, no eixo, o azeite que estava guardado numa vasilha feita com um chifre que ficava pendurado junto à mesa do carro.

Muitas vezes o nosso carro de boi transportava doentes para o hospital de Piranga e para serem atendidos pelos farmacêuticos de Calambau, na Casa de São Vicente. Na época das chuvas o carro ia até Senador Firmino ou até Divinésia, buscar as mercadorias para os armazéns de Piranga e Calambau. Algumas vezes ele servia para transportar a nossa família para Calambau, principalmente em época de festas como Natal, Semana Santa, Adoração (Carnaval), quando tínhamos que ficar mais dias "na rua", como dizíamos. Isso acontecia quando nosso pai Zé Carneiro ainda não possuía automóvel ou caminhão.

Os carros de bois eram identificados com os seus donos: conhecíamos o carro de Sô Quinca Maciel, cujo carreiro era o João Tomás, famoso tocador de sanfona; o carro do Antônio Custódio, um fazendeiro nosso vizinho, tinha um boi de coice nabuco; o carro do Vicente Faria, tinha as cangas com os canzis mal feitos; já o carro do Sô Dino tinha uma esteira muito bonita e assim por diante.

A junta de bois de guia, além de comandar as demais, tinha que ser boa na hora de segurar a marra. Nessa hora, a junta de guia era para trás do carro; o cambão (corrente) era preso na parte de trás da mesa e a outra extremidade fixada à canga. Nas descidas dos morros essa operação funcionava como freio. Era só bater na testa dos bois que eles esticavam a corrente e o carro descia devagar. Uma das tristezas do Zé Luquinha era quando o carro tombava. Às vezes o carro cheio de milho ou cana, quando uma das rodas subia no barranco, a carga era jogada no chão. Além da amolação de "destombar "o carro, tinha também a de "recarregá-lo".

O fato é que o carro de boi teve a sua época. Além de sua utilidade no transporte, fica na lembrança os bons momentos que ele nos proporcionou, principalmente, a nossa convivência com os carreiros, candeeiros e porque não dizer, com os bois...

***********

murilo de calambau
Enviado por murilo de calambau em 05/01/2011
Código do texto: T2711255
Classificação de conteúdo: seguro