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ESTUDO PARA CORDEL: O QUE É ESSE FOLHETO PENDURADO NO BARBANTE?

ESTUDO PARA CORDEL: O QUE É ESSE FOLHETO PENDURADO NO BARBANTE?

                                 Rangel Alves da Costa*


Pra falar sobre o cordel, tem que se montar veloz corcel e galopar na história, buscando em cada memória cada toco de raiz que floresceu e fez a glória.
Trazido de Portugal, que um dia se fez oral, se espalhou solenemente em território nacional, já na escrita assentado o versejar sem igual. Sendo folheto ou cordel, no chamar de déu em déu, verdade é que passou a ser arte de verdadeiro menestrel.
No Nordeste fez moradia e daí motivaria um crescer noite e dia, vez que a base do cordel é recolher todo o escarcéu e transformar em causo escrito aquilo que é bonito ou tido como esquisito. Nasce também do imaginar, do poeta a sonhar com uma situação, tornado através da rima, que na poesia é acima, obra-prima da criação.
Mas eu lhe pergunto agora e me responda sem demora qual a definição de cordel, e diga sem treleléu, pois no erro há castigo e no acerto ganha o céu. Vou lhe ensinar responder, sem isso desmerecer, mas digo de antemão que não há definição que junte numa junção o alcance do cordel com toda compreensão.
Cordel é um folheto ou livreto escrito com muito acerto pelo poeta popular, e este é o cordelista, um verdadeiro artista da estrofe a versejar. O tema que é trabalhado, com esmero e cuidado, vai desde o falar da vizinha a um assunto arretado. Pode ser filosofia, mas também Dona Maria; pode ser céu e inferno, mas também a noite e o dia; pode ser da covardia e também da valentia; sobre qualquer personagem, fazendo uma viagem onde o fato foi passagem.
O cordel, como outra arte, tem um jeito de fazer, cada um sabe escrever a seu modo e mercê. Tem cordel inteligente, com assunto diferente, mostrando que o autor da poesia é doutor, cuidando com seu louvor daquilo que imaginou. Tem cordel mais acanhado, um pouco mais despreocupado com o que vai ser mostrado, mesmo assim grande conquista para o saber do cordelista.
Como é literatura, chamada de popular, o cordel é pra mostrar tudo que é do povo e no povo há, seu imaginário, seu falar, suas crenças, seu pensar, naquilo que acredita e que possa acreditar. Por isso que o cordel tá em todo lugar, em todo falar e cantar de uma gente faceira, que passeia pela feira e deita na sua esteira para a vindita apreciar.
O que se chama literatura de cordel é, pois, o próprio cordel, quando escrito no papel e vai buscar seu laurel no local onde é vendido. Geralmente num barbante é estendido, na feira ou no mercado, e logo é rodeado pelo povo que quer saber do homem que morreu sem viver, do que já era velho ao nascer.
Mas para escrever o cordel é preciso escolher como vai ser a estrofe, como a rima emparelhar e não deixar desandar. É a chamada métrica, que do poema é a estética. Daí o cordelista fazer a escrita com versos em quadra, sextilha ou septilha, oitava, quadrão em décima, dez versos de galope à beira-mar, martelo ou carretilha, parecendo uma quadrilha com o poema a dançar.
Quando o poeta escreve sua história bonita imaginando ele fica como dá laço e fita, como botar no papel aquele estrelado céu. Procura logo quem crie uma capa interessante e que o povo aprecie, mas tem outro artista nato que faz isso em fino trato que é o xilografista.
 Este pega a madeira, vai cortando beira a beira, fazendo furo e fileira, e tudo com cinzel, dando vida à imagem que retrata o cordel. Depois de pronta a gravura ao se deitar no papel é verdadeira pintura, e pronta tal estrutura, vai ser juntada ao papel e ser capa da brochura. Coisa mais linda de ver, criar uma história matuta e ver a cria aparecer, a arte por merecer para os outros entreter.
A capa também é feita com outro material, figura criada em borracha ou um desenho normal, mas tendo que retratar a proeza principal: a saga de Lampião, Antônio Conselheiro no Sertão, Padim Ciço do Juazeiro e a devoção do romeiro, as lendas pelo nordeste, os feitos dos cabras da peste, a seca que tanto mata e o coronel que desacata, não importa o personagem, mas tem que ser firme na viagem.
Desde antanho é o passo e até hoje é o compasso pra que o cordel tenha espaço. Da luta de muita gente, de matuto inteligente, cada um na sua vertente, para dar vida ao poema, ainda forte sobrevivente. E tudo nascido um dia de mentes que com galhardia outra arte antevia para o povo entender, desde o ruim de leitura até o que sabe ler.
E foram esses professores, no cordel mais que doutores, que versos imaginaram para o prazer dos senhores: Leandro Gomes de Barros, Apolônio Alves dos Santos, Germano da Lagoa, Romano de Mãe D´Água , Silvino Pirauá, Manoel Caetano, Manoel Cabeleira, Firmino Teixeira do Amaral, José Martins de Ataíde, Manuel D’Almeida, Francisco das Chagas Batista, Antônio Batista Guedes, Antônio da Cruz, Joaquim Sem Fim, Cordeiro Manso, Zé da Luz, Manuel Vieira do Paraíso, Otacílio Batista, Joaquim Silveira, João Melquíades, Romano Elias da Paz, José Camelo, Manoel Tomás de Assis, José Adão Filho, Lindolfo Mesquita, Moisés Matias de Moura, Arinos de Belém, Antônio Apolinário de Souza, Laurindo Gomes Maciel, Moreira de Acopiara e Bob Motta, Raimundo Santa Helena, José Ferreira da Silva e Minelvino Francisco, entre outros, não esquecendo dos sergipanos, o imortal João Firmino Cabral, João Sapateiro, Zé Antônio e Gilmar Santana.
E dos cordéis mais conhecidos, nem por isso mais vendidos, procurem que estão escondidos: Pavão Misterioso, A Chegada de Lampião no Inferno, Labareda - O Capador de Covardes, História da Rainha Esther, A Guerra de Canudos,  A Mãe que Xingou o Filho no Ventre e Ele Nasceu com Chifre e com Rabo, Peleja de Pinto com Milanês, O Estudante Que Se Vendeu ao Diabo, A Discussão do Carioca com o Pau-de-Arara, Peleja de Riachão Com o Diabo, O Homem Que Casou Com a Jumenta, A Filha de um Pirata, A Mulher Que Engoliu um Par de Tamancos com Ciúme do Marido, O Rapaz Que Casou com uma Porca, História da Razão dos Cachorros Cheirarem o Fiofó Uns dos Outros e Coco-Verde e Melancia, dentre outros, muitos outros.
Eis o que pude retratar sobre essa arte popular e se souber de algo mais venha logo me contar, pois faço belo cordel pro coração alegrar.



Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com

Rangel Alves da Costa
Enviado por Rangel Alves da Costa em 20/01/2011
Reeditado em 20/01/2011
Código do texto: T2740269
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Rangel Alves da Costa
Aracaju - Sergipe - Brasil, 56 anos
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(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 13/12/19 11:37)
Rangel Alves da Costa