Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Fechar das Cortinas [Crônicas do Déc1mº Terce1Rº - 1]

Eu penso que cada bala, no momento em que é forjada, é predestinada a algo. Algumas a serem "bala perdida", e minha definição do termo não é a usual, que chama assim as balas que erram o alvo e acabam na cabeça de um inocente, uma bala que encontra qualquer coisa com vida não pode ser chamada perdida, perdido é o coitado que teve o azar de encontrá-la; Uma bala perdida é a que não encontra carne fresca, é a bala anônima, parada pela blindagem de um vidro ou por uma espessa parede de concreto; Mas tanto a "bala perdida" da definição usual, quanto a da minha definição, em geral, só cumpriram sua predestinação e assim também é com as balas que acertam o alvo.
Há balas predestinadas a matar, outras a ferir, aleijar, muitas a passar de raspão, e as vítimas são das mais variadas: Animais selvagens e, não raramente, alguns domésticos, políticos - estou sendo redundante? -, sacerdotes e falsos sacerdotes, diplomatas, playboys, traficantes fumaça e donos da boca, prostitutas, donas-de-casa, policiais, cobradores de ônibus, taxistas, motoboys, seguranças, flanelinhas, pivetes, mendigos, adolescentes e crianças inocentes e as que perderam a inocência também, viciados em drogas, cafetões,  pacificadores, todo e qualquer tipo de soldado, afinal, como dizia a Geraldo Vandré: "Somos todos soldados, armados ou não". Enfim, cada bala tem um destino predefinido e único. É, único, duas balas não se alojam em um mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo.
A vítima é co-protagonista com o projétil numa cena jamais ensaiada, mas perfeitamente coreografada. Muitos epílogos são escritos com sangue e as cortinas se fecham encerrando de vez o espetáculo da vida. Mas isso não me assusta, não mais, não depois de tantas vezes puxar as cordas que fecham as cortinas. Afinal, esse é meu trabalho, o Destino sussurra o que deseja que seja escrito no epílogo, sussurra no ouvido do meu cliente que repassa para mim e as vezes, algumas partes, direto no meu ouvido, mas sou eu quem roteirizo, escolho o cenário, dirijo os co-protagonistas e, no fim, puxo a corda.
Corda. Gatilho. Gatilho. Corda. Aparatos que se confundem nessa analogia que poetiza este serviço-sujo-mas-alguém-tem-que-fazê-lo. Muitos assassinos de aluguel usam analgésicos para aliviar a dor na consciência, digo, isso é uma metáfora, mas se interpretado literalmente também não deixa de ser verdade, já que tantos se dopam, mas o analgésico figurado é o Dipirona-se-alguém-lhe-quer-morto-é-porque-fez-por-merecer-sódico, tolice! Eu sei que alguns dos que matei não mereciam ser assassinados, alguns clientes nos contratam para dar fim as mulheres porque elas o flagraram em adultério, outros para matar um bom trabalhador para tomar seu lugar, outros tem, sabe-se lá o porquê, como alvo missionários que só fazem caridade, poderia dar muitos outros exemplos, mas não convém, quem sabe numa próxima vez, o que interessa é que eu nunca precisei destes artifícios, sempre segui a política "O Destino sussurrou está sussurrado. Se não for eu a co-escrever o roteiro, será um outro qualquer, então, antes seja eu recebendo dinheiro para ser arauto do Destino, meu destino é ser arauto do Destino". Foi no que sempre acreditei, mas agora a perspectiva é outra, sou eu no palco e 12 pares de mãos querem a todo custo puxar a cortina da minha existência. Ao menos foi o que vi em meu sonho: Um breu, eu só via as cortinas vermelhas na penumbra, de repente surgem 12 armas apontadas para mim, as 12 faces zombeteiras dos 12 traidores me encarando. Sempre sonhei um dia antes com minhas vítimas, e foi destes sonhos que tirei toda essa analogia do teatro, a vítima sempre aparecia estirada no palco, com o cenário do lugar onde ela morreria no dia seguinte e eu puxava a corda que fecha a cortina e essa fazia barulho de gatilho, estes sonhos nunca falharam, mas não se pode afirmar que eram sonhos premonitórios, afinal, eu já conhecia bem as vítimas quando as via em sonho e já sabia bem quando e onde as mataria, provavelmente, meus sonhos nunca falharam porque meus planos nunca falharam, ou será que não, será que o Destino trama contra mim? Me trai agora meu cúmplice em tantos crimes? Seriam todos estes sonhos (inclusive o da minha morte) ecos dos sussurros do Destino? Ah, pouco importa, EU escrevo o roteiro! EU dirijo os protagonistas! O destino pode se esgoelar que não lhe darei ouvidos, ele permitiu, até colaborou, eu me tornar um dos melhores no ramo dos epílogos escritos com sangue.
Taurus PT92CS. Minha pistola preferida, calibre de 9mm, brasileira, feita em aço inoxidável e com capacidade para 12 balas. Número de balas no pente? 12. Número de traidores que tenho que matar? 12. Seria isso o que chamam de "ironia do destino"? Não, não quero mais papo com este traiçoeiro Destino. Acho que posso chamar de Sorte, e meus 12 companheiros podem chamar de Azar, é, é isso, além de ter número de balas a conta, tem o fato de eu ser o 13º Membro da Sociedade dos Assassinos. 13. O mais enigmático número desta dualidade Sorte/Azar, já foi associado aos dois lados da moeda, já jogou nos dois times e agora jogará a meu favor, será o número da sorte para mim e o do azar para os meus inimigos. Bem, nunca fui supersticioso, mas sempre acreditei no que me convém e esse lance de sorte me é muito conveniente neste momento. Interessante, a Sorte e eu em um jogo de forças contra o Destino. Uma boa briga, eu me recuso a ser derrotado e o Destino no conceito mais puro não PODE ser derrotado, é como eu disse "Destino foi no que sempre acreditei, mas agora a perspectiva é outra, sou eu no palco", e eu não gosto de ser dirigido, principalmente se querem puxar a cortina, isso me leva de volta ao início dessa minha divagação, o conceito das balas predestinadas, pré-destinadas -isso não resolve o embate de forças, mas o problema da terminologia, sim. O Destino não é escrito em pedra, ele só sussurra sua vontade, os fracos obedecem sem questionar, mas os fortes fazem frente até ao próprio Destino. Vamos negociar, então, Destino, você não sai perdendo e eu também não, te dou o corpo daqueles 12 canalhas no lugar do meu, isso sim, resolve o embate. É, sei que 12 canalhas não pagam o preço de alguém como eu, mas pense como um penhor, afinal, mais cedo ou mais tarde meu sangue vai virar tinta, por enquanto terá que se contentar com estes 12.
Cayyan
Enviado por Cayyan em 25/01/2011
Reeditado em 25/01/2011
Código do texto: T2751963


Comentários

Sobre o autor
Cayyan
Pindamonhangaba - São Paulo - Brasil, 29 anos
59 textos (6554 leituras)
1 áudios (72 audições)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 08/05/21 06:42)
Cayyan