Foto "improvisada" da web
MULHER OBJETO DE CAMA E MESA


Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

                         Com licença poética – Adélia Prado
 

            Durante esta semana e ao longo do mês de março vamos ouvir e ler muitas referências e homenagens ao DIA DA MULHER. Embora reconheça um esforço genuíno de muitos movimentos para qualificar o debate e todos os avanços no campo profissional e até político, os chavões e clichês de todo tipo são, nas chamadas da mídia para vender mais qualquer produto, para “a beleza” e o “charme” de todas nós.
        Reconheço mais ainda que o Dia da Mulher  está tão comercial que qualquer reflexão parece tola mas eu me pergunto quantas de nós realmente têm a consciência e a responsabilidade de saber se valorizar e se respeitar em todos os papéis que desempenhemos.

        Um dos problemas que enfrentamos é da construção da identidade, da personalidade. Muitas de nós se contentam apenas em ser a sombra do parceiro e, no lado extremo, outras querem ser a sombra, fazem de tudo para que o companheiro  a sufoque com sua atenção, seus cuidados e seus ciúmes. Também há uma ala que quer ser famosa, bonita e gostosa a qualquer preço.
        Mas o que estamos construindo no imaginário do sexo oposto, com nossas atitudes? O quanto nos valorizamos, para sermos igualmente valorizadas, respeitadas?
       Enquanto elaborava este pensamento, me veio uma lembrança emblemática: quatro lindas meninas bem da geração “posso te conhecer?” se arrumando para uma balada num desses mega shows de axé music, forró eletrônico e afins.
        Minha curiosidade vira-lata, sem nenhum subterfúgio, ficou observando-as se vestirem com se fossem a praia. Tops que mal encobriam os seios, micro shorts e micro saias bem abaixo do umbigo, maquiagem pesadíssima nos olhos e saltos altíssimos.Todas lindas, com o frescor da juventude tornando-as mais lindas ainda porém, fiquei pensando que pareciam se arrumar para um baile de carnaval, fantasiadas de piriguetes*, ou ainda de peças de carne num açougue, bem a vista do freguês... Mas, longe de mim engrossar o cordão dos intolerantes com micro vestidos e trajes desse tipo...
        Lembrei que, pela idade, todas elas deviam ter imitado, dançado e se vestido como as louras do Tcham, a Tiazinha... Meninas erotizadas na infância com a aquiescência de mães e tias sem noção, para não utilizar adjetivos menos nobres.
         Imaginei (só imaginei) os olhares dos rapazes para aquele quarteto... Uma geração que privilegia a aparência, os desejos, as necessidades afloram pela aparência mesmo, mas o que ficará para além de olhar a superfície?
          As conversas no Day After de um show assim é que são esclarecedoras: meninos e meninas comentam com quantos ficaram, quantos pegaram, quantos beijaram sem trocar uma palavra sequer. Rapazes se vangloriam  que conheceram “ biblicamente”  algumas meninas e até  as recomendam aos amigos!
        Ir a um point da moçada hoje é se deparar com cenas deploráveis. Meninas mal saídas da puberdade bebendo feito esponja, perfeitamente adaptadas, aguardando ou investindo em relações fortuitas, meninos organizando rankings de Pegação... Mulheres profundamente infelizes de saírem na noite e não arranjarem alguém para “pegar”...
        Mulheres tratadas/se deixando tratar como coisa, objeto descartável. Muitas delas desvalorizando-se por suas próprias atitudes, vidas vazias de sentido e significado. Daqui a pouco gastas pelo tempo e ocas, mendigando afeto, ás vezes se deixando explorar pelo primeiro cafajeste que lhes estalar os dedos, por puro medo da solidão.
       Sinceramente podem me chamar de ultrapassada, cafona, anacrônica e tudo o que mais traduzir esse meu estranhamento com esse comportamento da modernidade mas não abro mão de dizer que, em oposição a tudo isso, mulher que se valoriza e se faz respeitar jamais será mulher objeto de cama e mesa ou mulher objeto de “pegação”.

 

*Piriguete - Significado:
Piriguete, também denominada Piri, é uma gíria brasileira que designa uma mulher, normalmente jovem, de acesso fácil e/ou que tem múltiplos parceiros e tem uma preocupação excessiva em exibir os nuances do seu corpo. Geralmente anda em grupos com outras moças que compartilhem os mesmos valores. O termo teve origem em Salvador, a capital baiana, mas se espalhou pelo resto do Brasil em forma de músicas de pagode como por exemplo "As piriguetes chegaram", interpretada pelo grupo Pagod'Art. http://br.answers.yahoo.com/question/inde?

Sugestão de leitura:

O livro Mulher, objeto de cama e mesa é uma publicação da Vozes de 1974, da jornalista Heloneida Studart composta de textos concisos, geralmente frases bem chocantes, em forma de colagens, tornou-se um sucesso editorial ao longo dos anos e, atualmente, já está na 27ª edição com quase 300 mil exemplares vendidos.A escritora se propunha a falar da condição feminina, do seu corpo, de maneira tão incisiva e sem muitos rodeios e até insultava as mulheres para que repensassem as suas vidas além do universo doméstico e pudessem construir a sua própria trajetória além do espaço doméstico.
Adaptado por mim do site
http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104

Um “Pedacinho” do livro:

Em 1970 voltei ao jornalismo, indo ser redatora de uma revista feminina. Em minha mesa, estava a pauta dos assuntos a serem editados:
como prender um homem para toda a vida;
a melhor maneira de aproveitar os vestidos do ano passado,

além do teste:
você se considera bonita?

Enquanto isso, os norte-americanos estavam remetendo outro Apolo à lua; os soviéticos enviavam uma sonda a Marte; dois cientistas italianos pesquisavam a possibilidade de criar bebês em provetas; o tevecassete modificava o papel da televisão nas sociedades de consumo. Sobre tudo isso, nem uma palavra na revista feminina. O tema proposto às mulheres era o de sempre:

como prender o marido
para toda a vida e quais
as 10 melhores maneiras de conquistar
um homem.


Quem pode censurá-las se elas parecem retardadas mentais?

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