HOJE EU NÃO MATEI NINGUÉM

José Ribeiro de Oliveira

Hoje eu não matei ninguém! Aguardei por 20 minutos o elevador chegar, pois o vizinho do andar de cima conversava com seu amigo e o manteve com a porta aberta enquanto papeava. Ao sair da garagem, a moradora do prédio ao lado havia estacionado o carro na frente da minha garagem, enquanto tomava banho. Quando chegou, 15 minutos depois, nem me cumprimentou e ainda parecia irritada. Quando estava saindo do prédio, o ônibus escolar me fechou por cerca de uns dez minutos, estacionado exatamente na entrada do prédio, enquanto apanhava os estudantes no local. Consegui sair, mas na primeira esquina, esse mesmo ônibus encostou levemente num taxi e o arranhou, ocasião em que o taxista parou seu veículo no lugar do acidente, impedindo o fluxo do trânsito e, muito bravo, ligou para a polícia. Sem opção para passar, fiz a volta por outra via bem mais distante e muito congestionada. Um motoqueiro que atravessava por entre as pistas de rolamento, quebrou o retrovisor do meu carro e desapareceu no trânsito, não sendo possível sequer anotar a placa da moto. Esse contratempo me fez atrasar uma hora e meia a mais no meu percurso de rotina para o trabalho. Quando cheguei ao serviço, encontrei um recado do chefe para que logo que chegasse fosse justificar meu atraso. O patrão, que raramente procurava pelos funcionários, hoje passou pela minha sala cerca de 40 minutos após o início do expediente e, observando a minha ausência, criticou severamente o meu chefe. - O senhor está na lista dos que serão dispensados! Falou meu chefe, sem nada perguntar e sem dar oportunidade de argumentação. Alguns minutos depois, o interfone da minha sala tocou. - Senhor, por favor, ao final do expediente, compareça ao Departamento de Pessoal. A seguir, meu telefone tocou. Minha esposa pedia que levasse urgente um botijão de gás, que havia terminado enquanto preparava o café das crianças. Saí em caráter de urgência para atender à solicitação da minha esposa. Como se tratava de uma urgência, avisei apenas a secretária. Ao sair com meu carro, acabou a gasolina. O posto ficava bastante longe e preferi deixar o carro no local e cumprir a tarefa num taxi. Apanhei o coletivo e me destinei ao local para comprar o gás. Lá chegando, me esqueci de levar o vasilhame para a troca e tive que apanhá-lo em casa, de taxi. Retornando para o posto, uma blitz da polícia congestionava o trânsito e fiquei retido por cerca de 20 minutos. A polícia estava revistando exatamente os taxis, a procura de armas e drogas. O coletivo em que eu estava era dublê de outro taxi. Quando aproximávamos da polícia, o motorista abriu a porta e saiu correndo por entre os veículos. A polícia não conseguiu alcançá-lo, e verificando a irregularidade, me deu voz de prisão e reteve o veículo. Apoderou-se do meu telefone e não me permitiu fazer contato com ninguém. Depois de cerca de duas horas de blitz, suspenderam a operação e fui conduzido, na condição de suspeito, para a Delegacia. La chegando, me lembrei que estava sem documentos pessoais. Tentei conversar com o agente, mas este respondeu que o Delegado ainda não havia chegado e mandou que me levassem para o xadrez, aguardar a decisão da autoridade. Somente por volta das 17 horas, fui retirado do xadrez e levado à presença do Delegado. Este já estava de posse do meu celular, e me indagava sobre uma mensagem recebida com o seguinte termo: “trás o gás”. Tentei argumentar com a autoridade sobre os fatos, mas esta já havia decidido que eu seria autuado por fraude. Pedi que ligasse para o meu trabalho. Não havia mais ninguém. Pedi que telefonasse para minha casa, o que foi feito. Minha mulher não estava, havia saído desesperadamente para me procurar. Por volta das 18 horas, consegui fazer contato com minha mulher e esta telefonou para um advogado amigo meu. Às 19 horas recebi a visita da minha esposa e meu advogado. Tudo se esclareceu e fui liberado. Diriji-me para apanhar meu veículo, que havia deixado na, rua por falta de gasolina. Não o encontrei. Acabara de ser rebocado pelo DETRAN. Fui até ao DETRAN para apanhar meu carro, ocasião em que fui informado que teria que pagar uma diária, uma multa e o valor do reboque. Paguei e retirei meu carro, tendo antes que ir ao posto e comprar combustível no saco plástico, para colocar no tanque. Voltei para casa, já por volta das 20 horas, sem matar ninguém. Mas...

Professor José Ribeiro de Oliveira
Enviado por Professor José Ribeiro de Oliveira em 11/03/2011
Reeditado em 11/03/2011
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