Lembranças da infância

- Vila Carioca – Ipiranga - SP -

Via-me criança, que andava descalço pelas ruas do bairro Vila Carioca, pois não tínhamos calçados, na época o que era mais usado eram as famosas "paragatas rodas", sapatilha fabricada com pano e na sola uma espécie de saco de estopa.

Indo a pé da Rua Albino de Moraes até a Rua Silva Bueno, Café Jambo, era uma boa caminhada, que pisávamos num cascalho, resto de borras de ferro, jogado pela Laminadora local, empresa estabelecida na Rua Álvaro Fragoso com a Rua Campante.

No inverno rígido dos anos de 1950, sentíamos o contraste da temperatura, corpo quente, e nas solas dos pés parecia que andávamos em cima de pedras de "gelo seco", que doía os ossos. As indumentárias que usávamos era tipo padrão, feitas de saco vazios comprado nas vendinhas do bairro.

Os sacos vazios eram lavados com "cândida", diziam ser aquele produto "água de lavadeira", os sacos ficavam branquinhos da silva, posteriormente a mãe dizia: “Meu filho, vai na vendinha do "seu Madruga" comprar anil para tingir”. Todos nós vestindo calção azul, idade, 8, 7, 6 anos. Os adultos usavam os famosos "suspensol", trançados de um lado pro outro, veja a foto acima que confirma.

Um parente do Sr. Meireles tinha uma padaria na Rua Silva Bueno, próximo do Mercado Municipal do Ipiranga, todos os dias sobravam pães, pão-doce e derivados, ao invés de jogarem fora, os portugueses distribuíam pra quem quisesse pegar. Enfim, saímos da padaria com umas sacoladas de pães. O pão doce a gente comia rapidinho, o restante a minha mãe fazia pudim no fogão-de-lenha.

No Carnaval a diversão era assistir os atletas do Juvenil Flor da Vila Futebol Clube jogar futebol todos vestidos com roupas de mulher, isso era uma tradição. Em tempos de verão, muito calor, a diversão era nadar na "Lagoa Três Torres", bem próxima da estação ferroviária do Ipiranga.

Mas num certo dia, o meu pai descobriu onde nadávamos, ele apareceu empunhado uma vara de marmelo, daí saímos todos correndo pela linha do trem sentido Ipiranga - São Caetano tentando vestir o calção.

Quem apanhou foi o mano Ademir, o caçula da família, eu e o mano Rubens nos safamos, e perna pra quem tem, viramos um corisco, tipo "Flash".

Presenciei dois linchamentos, pessoas sendo golpeadas por "peixeira", tijoladas etc., por incrível que pareça a gente acabava acostumando com tudo isso, não tinha medo, enfim, era nosso habitat. Apesar de tudo sobrevivemos...

Tangerynus
Enviado por Tangerynus em 23/03/2011
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