A CORRERIA NOS APROXIMA DO FIM
 
Lembro-me quando ainda criança, o tempo parecia moroso por demais. Ao entardecer do domingo, ficava pensando no próximo final de semana para brincar, já que durante a semana era para trabalhar - embora criança - e estudar. Mas o sábado demorava muito para chegar, era um espaço quase que infinito de um fim de semana ao inicio do outro.
 
O tempo nas regiões interioranas demora a passar. Julguei que era apenas em criança, mas até hoje é uma pasmaceira só; não tão devagar como quando em criança, mas ainda demora a passar. Creio que a cultura regional faz a diferença no andar dos dias.
 
Como seria interessante se pudéssemos trazer para os grandes centros esta cultura, isto significaria mais qualidade de vida, e consequentemente mais tempo para viver: O prazer pela vida, pelas boas coisas do dia a dia, por mais simples que elas nos pareçam.
 
Vivemos nas metrópoles, como se não houvesse um dia após o outro. Tudo é muito corrido; não percebemos o dia na sua essência, tão pouco a noite, com o seu fetiche. Só percebemos o instante no qual é marcado por um fato, num determinado espaço do tempo.

Não percebemos o dia nem à noite na sua integralidade temporal, mas apenas naquilo que se insere como um marco no seu bojo, tempo diurno ou tempo noturno.
 
Nós brasileiros corremos muito para realizar coisas. Respeitamos pouco o tempo que nos cabe. E para quê? O saldo dessa correria é o estresse, a dor de cabeça e o envelhecimento precoce.
 
Na cultura sueca, tudo se processa, tendo-se por parâmetro, o respeito ao tempo, no trabalho eles discutem, discutem, fazem diversas reuniões, fazem várias ponderações. E trabalham num esquema bem mais "slow down". E podemos constatar que, ao final, acaba por dar certo no tempo deles, com a maturidade da tecnologia e da necessidade daquilo que é feito.
 
Na Europa há um movimento hoje, chamado “Slow Food”. A “Slow Food International Association” – simbolizado por um formato caracol e tem sua base em território italiano.
 
O movimento “Slow Food” apregoa que as pessoas devem comer e beber vagarosamente, saboreando cada alimento, degustando do seu preparo, no convívio familiar ou com os amigos, sem pressa, mas com qualidade.
 
A ideia é ir de encontro ao espírito do “Fast Food” e o que este representa como estilo de vida, a que o americano endeusou.
A base para tudo isto está no questionamento da – pressa - e da – loucura - propiciada pela globalização e pelo apelo à - quantidade do ter - em detrimento à qualidade de vida ou à - qualidade de ser.
 
Esse movimento da "slow atitude" está sinalizando até mesmo aos americanos; defensores fervorosos do "Fast" (rápido) e do "Do it now" (faça já).
 
Por conseguinte, essa - atitude sem-pressa - não quer dizer fazer menos, nem tão pouco, menor produtividade. Significa, sim, fazer as coisas e trabalhar com mais qualidade e mais produtividade, com perfeição, atenção aos detalhes e menos estresse.
 
“Significa retomar os valores da família, dos amigos, do tempo livre, do lazer, das pequenas comunidades, do "local", presente e concreto em contraposição ao "global" - indefinido e anônimo. Significa a retomada dos valores essenciais do ser humano, dos pequenos prazeres do cotidiano, da simplicidade de viver e conviver e até da religião e da fé”.
 
No filme "Perfume de Mulher", há uma cena inesquecível, em que um personagem cego, vivido por Al Pacino, tira uma moça para dançar e ela responde: - "Não posso, porque meu noivo vai chegar em poucos minutos."
 
- "Mas em um momento se vive uma vida" – “responde ele, conduzindo-a num passo de tango”.
 
Vamos tentar viver a vida, não na complexidade da dança em si, mas na leveza de um passo a cada dia. E quem sabe se lá pelo milésimo passo, não estaremos em total harmonia com o ritmo do tango.
 
                             Rio, 24/05/2011
                           Feitosa dos santos