Ele vai chegar hoje ...
 
 
 
                 Hoje a tarde irei buscá-lo e mentiria se não dissesse que estou apreensiva. Não só estou apreensiva, estou apavorada. Fui vê-lo na sexta-feira, logo depois do almoço, só para despedir-me. Queria lhe dizer adeus, pedir desculpas pela falsa ilusão que lhe dei. Não consegui: ele me envolveu de tal jeito que não só decidi trazê-lo para casa como já lhe comprei o enxoval completo. Amanhã, finalmente, a tardinha ele estará em casa e será o Senhor do meu tempo. Ele, o meu cãozinho schnauzer.
 
               Não, não era ele que eu queria.Decidi adotar um bulldog e sai procurando. Não achei. Ai fui em um dos petshops da Rua Santana e o vi, o schinauzer. Imediatamente fomos um com a cara do outro. Ou com o focinho, já que o nome dessa raça deriva da palavra alemã que significa focinho. Da gaiola em que estava ele pulou em meu ombro e não queria soltar-me. Nem eu a ele. E essa era uma condição básica para que eu levasse um cachorro para casa – que ele me escolhesse. Pois foi ele quem me escolheu e como rejeitar uma escolha tão especial?
 
            Estou sendo atrevida, ninguém acredita que eu seja capaz de cuidar de um cãozinho e estou começando a acreditar. É um bebezinho e exige cuidado e atenção. É tão pequenino que temo atravesse as grades de minha casa e fuja se perdendo nas ruas. Um bebê pelo menos não fugiria e poderia usar fraldas. Mas um cachorro não é um bebê – é um cachorro e como tal deve ser tratado. Nada de fraldas ou coisas similares.
 
           Suas características são ótimas – inteligentíssimo, se apega ao dono e na ausência dele é incorruptível – quer qualidade melhor? Seu caráter é jovial e brincalhão, além de ser bem bonitinho.
 
           E eu não gostei dos que escolheram – quero um nome pequeno e fácil de guardar. Fácil para o cão. Deixarei essa questão do nome para mais tarde, quando ele chegar. Pedi a minha mãe que escolhesse o nome, já que todos davam palpite. Ela respondeu, naquele jeito dela, bem conhecido dos filhos: se não escolhi nem os dos filhos, por que haveria de escolher os de um cachorro. Ela teve dez filhos e diz que não conseguiu  escolher o de nenhum. Ela escolhia e o pai ia lá e colocava outro. Ou alguém dava tanto palpite que ela fazia como eu estou fazendo agora: deixava para lá.Valéria fui eu quem escolhi. Dudu teria sido um consenso entre as filhas se meu pai não tivesse ido lá e o registrado com seu nome: Geraldo. Mas nós nos vingamos e recusamos chamá-lo assim – então ele é e para sempre será Dudu. Menos para a família de meu pai, que o chama de Geraldinho. Ou para os estranhos cerimoniosos que ligam e procuram pelo Eduardo. 
 
          Mas voltando ao meu cãozinho, irei hoje, as quatro da tarde, conversar com o veterinário para trazê-lo para casa.  Acho que as pessoas não estão acreditando muito que eu realmente vá fazer isso., trazer um cachorrinho para casa Mas já notei que alguns estão ansiosos por recebê-lo. Só espero que não esperem que eu seja mãe de um cachorro. Não quis ser mãe de gente e muito menos quero ser mãe de um cachorro. Quero apenas ser chefe dessa matilha de dois: eu mandando e ele obedecendo.