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Do ginásio e mais um pouco

O que, na verdade, me trouxe à lembrança a história da medalha do concurso de redações, foram as que conquistei durante o curso ginasial. Lembro disso como algo muito pueril, mas que assumia uma importância ímpar, naquela época. Famílias inteiras iam à formatura das turmas do ginásio, para verem seus filhos, sobrinhos, irmãos, netos, recebendo a premiação pelo empenho no estudo, compensado ao final do ano.
Minha turma foi bastante grande. A maioria estudou junto desde o 1° ano. Quatro anos de convivência diária, geram um relacionamento muito próximo. E muitos dos alunos já vinham da mesma turma da escola primária. Numa cidade pequena, o relacionamento entre as pessoas vai além do trabalho ou da escola. Nos finais de semana, as companhias eram as mesmas, as atividades eram comuns. Cinema, sorvete no bar do cinema, depois ver o trem das 5 horas passar, sentar na praça até a hora de voltar para casa.
Nossa turma, na 4ª série, desde cedo começou a se preparar para o final do ano. Em julho, mês de férias de inverno, realizamos um baile que foi formidável. Um sucesso. Uma Noite hibernal. Nos preparamos durante semanas, pois decidimos realizar um desfile de moda feminina, antes do início do baile. Transformamo-nos em manequins. Muito nervosismo, roupas cedidas por 2 lojas de Novo Hamburgo e a loja em que eu trabalhava, aqui da cidade. Houve um pequeno desentendimento, na hora da escolha das roupas, pois havia algumas garotas, de outra turma, que participariam do desfile, que insistiam em apresentar roupas de dormir. Depois de alguma discussão, condescendemos, mas o público ficou um tanto “chocado”, com a aparição das garotas vestindo camisolas transparentes, por cima um robe, também transparente. Mas, todas sobreviveram.
Chegou o final do ano e, depois de muita correria, tivemos nossa noite de glória. A formatura, de praxe, se realizava no salão do Clube, que naquela época se denominava Sociedade de Canto Sapiranga. Os formandos entravam perfilados, acompanhados do pai, as meninas e os rapazes, pelas mães.
Depois da cerimônia da entrega dos diplomas, que eram apenas canudos de papel em branco, pois muitos dos formandos ainda teriam que passar pelos exames de 2ª época, eram entregues as medalhas para os alunos melhor classificados durante o ano. Começavam pela 1ª série. Medalha de bronze, para o 3° lugar, de prata para o 2° e de ouro para o primeiro.
Desde a 1ª série, essas medalhas tinham destino certo. Nos dois primeiros anos, um de meus irmãos mais velhos estudava na mesma série que eu. Ele não costumava estudar. Lia minha matéria, fazia a prova e tirava 10. A medalha de ouro era dele, sempre. A de prata ia para meu ex-marido, naquela época meu noivo, que não se conformava com a “sorte” de meu irmão. A de bronze, era minha.
A partir da 3ª série, meu noivo conseguiu abocanhar a medalha de ouro. Meu irmão casara e trocara de cidade. Automaticamente, eu subi para a medalha de prata. Na 4ª e última série, repetiu-se essa classificação. Lá no fundinho da memória, acho que lembro do colega que passou a receber a medalha do 3° lugar. Se não me engano, ele foi meu professor de contabilidade pública e bancária, muito tempo depois.
Essa noite da formatura tinha um significado muito especial para nós. Era como se, a partir dali fossemos considerados adultos. Ou mais adultos. Nossa turma não era composta por alunos da mesma faixa etária. Como o curso não existia há muito tempo na cidade, muitos jovens já passados da adolescência, que haviam parado de estudar há mais tempo, aproveitavam a oportunidade para completarem aquele ciclo, que hoje corresponde ao 1° grau.
Embora muitos de nós não nos encontremos com freqüência, ainda cultivamos essa amizade nascida daquela convivência diária. Casamos, tivemos filhos, alguns têm netos. Dentre nós, alguns continuaram juntos até concluírem o Curso Técnico de Contabilidade, no saudoso Virgilio Cortese.
Essa turma se reúne há exatos 41 anos, no primeiro sábado do mês de dezembro. Os remanescentes vêm de várias localidades, algumas bem distantes, para relembrarem essa história bonita de formação de profissionais e caracteres humanos calcados na lealdade às amizades. Parabéns turma!
Vitoria Lerinha Haubert
Enviado por Vitoria Lerinha Haubert em 03/12/2006
Código do texto: T308053

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Sobre a autora
Vitoria Lerinha Haubert
Sapiranga - Rio Grande do Sul - Brasil, 72 anos
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Vitoria Lerinha Haubert