PRECONCEITUOSO?! EU?!
 
 
            O brasileiro vive batendo no peito e dizendo que não possui nenhum tipo de preconceito, principalmente o de cunho racial. Quem quiser acreditar... fique à vontade! Porém, permita-me concluir que essa pessoa – certamente – acredita também em Papai Noel, Saci-Pererê, Mula sem-cabeça, Curupira, Cavalinho de Santa Luzia, Coelhinho da Páscoa...
Como seria bom se tal afirmação fosse verídica e, de fato, fôssemos um povo destituído de preconceitos!
          Pois bem, sempre que eu passava por um determinado local indo em direção ao Bairro Copacabana – aqui em Belo Horizonte – para realizar atendimento fisioterápico em um paciente, chamava-me a atenção a imponência de uma casa de três pavimentos, que ficava numa esquina, frente à rotatória que dava acesso à casa do meu paciente. O muro da referida casa era revestido em mármore branco. Show de arte, beleza e refinado gosto. Jamais havia visto os moradores daquela casa. Numa bela tarde, ao passar pelo local, chamou-me a atenção o fato de o muro ter sido pichado, em letras graúdas, numa cor preta agressiva, com os seguintes dizeres:
“AQUI MORA UM PRETO!”
          Pronto! É preciso dizer alguma coisa? Preciso dizer que aquela pichação foi feita, provavelmente, por um “branquelo” despeitado  – provavelmente loiro, de olhos azuis? E me pus a pensar em todos os obstáculos e preconceitos que o morador daquela casa teve que enfrentar e vencer para atingir o nível social que – merecidamente – alcançara. E me pus a pensar na raiva que se apossou da pessoa que havia pichado o muro, ao perceber que o morador daquela residência – por ser negro – havia ferido a ordem natural das coisas e estava trafegando na contra-mão da história. E me pus a pensar no quanto o ser humano está  longe de alcançar a misericórdia propalada por Jesus ao pregar o incondicional amor ao próximo!
          No dia seguinte, ao passar pelo local, não pude deixar de sorrir – num misto de satisfação e alívio – ao ver que logo abaixo da pichação feita, o morador havia escrito, em letras maiores ainda, na cor dourada, a seguinte frase:
“MAS...  É RICO!”  Pensei, com meus botões: “Toma, distraído!” E senti que não havia prepotência na resposta; antes, parecia mais um desabafo, um lamento... como quem dizia: “Viu? Apesar de seu preconceito, apesar da sua raiva, apesar da sua falta de amor, eu consegui vencer! O meu Deus é o Deus da Misericórdia e não faz acepção de raça, cor, credo...”  Fui para casa feliz, com a maturidade da resposta escrita a ouro no imponente muro.
No outro dia, ao passar pelo local, o espanto e a revolta se apossaram de mim. O pichador havia voltado e, sob a frase escrita pelo morador, havia escrito em letras maiores ainda, porém, na cor vermelha:
“MAS, É PRETO!”
          Neste momento, para minha tristeza, veio-me a compreensão  de que o “branquelo”, além de não concordar com o fato de o morador daquela residência ter vencido na vida, deixava claro – de forma ameaçadora – que, se pudesse, derramaria o seu sangue, extirpando-lhe a vida. Meus Deus! Qual será a resposta que o morador dará? Fui para casa pensando, aflito. Certamente que aquela ousadia não ficaria sem resposta.     
          Para minha surpresa, no dia seguinte, ao passar pelo local, encontrei o muro limpo. Toda a pichação havia sido removida, mostrando o desejo daquele morador de apagar para sempre um passado de sofrimento, lágrimas e dor; o desejo de reescrever a história de uma raça perseguida, sofrida, humilhada, marginalizada...
          Meu digno e nobre morador, não te conheço pessoalmente; sei apenas que você é uma pessoa destemida, que não se conformou com uma condição pré-fabricada e imposta por pessoas que se julgavam melhores, tomando como base, não a inteligência, a capacidade ou a determinação; mas, apenas uma coisa ridícula: a cor da pele.
          Finalizando,  aproveito o momento para convidar o “branquelo pichador”  a reescrever a história de sua própria vida, tomando como exemplo a determinação, a coragem, a ousadia, a obstinação e a capacidade de superação do morador desta residência que um dia – por incompetência e infelicidade absolutas – você resolveu agredir.





Alexandre Brito - 05/09/2011
(*) Imagem: Google
Alexandre Brito
Enviado por Alexandre Brito em 05/09/2011
Código do texto: T3201854
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