MEU PRESENTE DE NATAL




Ela era muito linda! Ganhei-a de presente no Natal. Havia muito tempo que pedia uma bicicleta de presente e não esperava que fosse exatamente naquele Natal!
Minha mãe sempre resistia, pois achava muito perigoso uma menina montar bicicleta (o sempre presente preconceito...). "- Bicicleta, é coisa para homem!", dizia minha mãe.Mas eu não desisti, renovava sempre o meu pedido e acabei vencendo-a pelo cansaço.


Naquela noite, véspera de Natal, demorei a dormir, pois queria "ver" o Papai Noel chegar e colocar o meu presente aos pés da minha cama. É claro que não consegui resisti ao sono, (deveria ter mais ou menos uns 10 anos de idade). Acordei somente pela manhã, o sol já estava alto, de um pulo fiquei de pé ao lado da cama... Queria ver o que tinha ganhado de Natal! Fiquei decepcionada... Nada tinha no meu sapato! Senti um nó na garganta, uma vontade imensa de chorar... Não éramos ricos, mas meu pai poderia ter comprado qualquer presentinho para mim! O que eu iria dizer aos meus amiguinhos da rua?


Tirei o meu pijama e tristemente fui andando em direção ao banheiro. Minha mãe já estava a postos na cozinha, o cheiro do café incendiava todo o ambiente, a mesa já arrumada esperava que tomássemos o nosso lugar. Continuei o meu caminho até o banheiro, mal cheguei à porta, avistei-a! Foi amor a primeira vista! Ela era linda! Era azul, toda enfeitada de prata, estava como que sorrindo para mim! Corri para ela, mas não tive coragem de tocá-la...Será que eu estava sonhando?!... Será que eu ainda estava dormindo?!... Continuei ali a olhá-la... Embevecida... Feliz... Aos pouquinhos, estiquei o meu braço e toquei-a levemente, puxei meu braço rápido... Ela não tinha desaparecido! Ela era de verdade! Não era um sonho... Era o meu presente de Natal!


Nos tornamos amigas inseparáveis, a minha rua era um pouquinho íngreme, formava uma ladeirinha, e foi ali naquela ladeira que aprendi a montá-la. Cai muitas vezes, machuquei-me e machuquei-a também, mas não desisti. Depois de muita insistência, tombos e arranhões, finalmente nos tornamos uma. Passamos a fazer parte uma da outra. Quando a estava montando, me sentia soberana, dona do mundo, nada nem ninguém me atingia, ela era o meu mundo, a minha referência. Não confiava em ninguém para consertá-la, dessa forma aprendi tudo referente a consertos de bicicleta...Sabia trocar pneu, consertar quando furava, aprendi o nome de todas as peças e assim nos tornamos cada vez mais íntimas. Uma dependia da outra. Foi minha amiga, companheira e referência durante muitos anos. O bairro cresceu, a rua foi asfaltada, casas foram construídas. Não tinha mais espaço para a minha amiga... Recusei-me a abandoná-la. Conformava-me em brincar com ela num pátio de mais ou menos 30 metros quadrados.!


Cresci, me tornei adolescente e ainda lembro da minha amiguinha, encostadinha num cantinho da minha casa...Sempre limpinha, apesar de bem velhinha...Até quando a tive, não sei... só posso dizer que ela sempre estará presente na minha lembrança, afinal de contas bicicleta é como o primeiro "soutien"... ninguém esquece.