Para escrever uma canção

Às vezes eu tenho um sonho tranquilo, um sonho de interior,

de criança do interior, que conheceu a capivara e a piabanha, o jacaré e o piau vermelho, as maritacas e o grumatã.

Pesquei muita grumatã e piabanha no rio doce quando criança. Lambarí nem se fala.

Pegava lambarí até de peneira no córrego do cascalho; Mandi, cascudo e até cobra verde, que vinha por engano.

Por toda esta vida de interior, e guardando comigo estas

vivências, eu tenho vontade de um dia voltar para uma

cidadezinha bem pequena, e alí comprar uma "terrinha".

Queria um pedaço de terra por um motivo muito particular:

Doaria este pequeno lugar, que eu transformaria de uma

maneira muito rudimentar, mas com muito carinho.

A transformação na verdade, seria não transformar. Deixar

tudo voltar ao seu estado natural, primitivo.

Alí eu só não me sentiria um intruso completo, porque eu

plantaria um pomar, com as mangueiras e abacateiros, as

bananeiras e os pés de jacas, e alguns pés de fruta pão,

para dar imponência a este cantinho.

Seria como ja disse, uma doação. Dedicaria este lugar aos

sabiás, às pacas e aos tatus, às rolinhas e aos bem-te-vís,

às joaninhas e ao lava bunda.

Ficaria encantado ao amanhecer, ouvir o canto do canário da

terra, amarelinho, num galho sêco, no meio da cerração, e

observar a paca e o tatu canastra passearem alegremente,

debaixo dos pés de manga e fruta pão, felizes.

Toda fauna seria convidada a tomar posse daquele banquete.

Tudo aquilo seria deles: o intruso seria eu!

De vez em quando eu apanharia uma manga, e comeria alguns

abacates e bananas.

Os macacos não ficariam aborrecidos em dividir um pouco de

bananas comigo, nem o sanhaço e o gaturama. E por falar,

por onde anda o gaturama, o inhapim e a estrelinha, o

catatau e a cigarrinha?

Nunca mais eu ví o catatau briguento nem a cigarrinha com

o seu canto singelo!

Não me importaria com as cobras e os escorpiões, eles

saberiam respeitar um amigo de coração lavado!

Mas queria uma vez ainda ver a briga do marimbondo cavalo

com a aranha caranguejeira. Não me meteria nesta briga,

apreciaria o duelo: A tática, a coragem e a inteligencia a

serviço da sobrevivencia de apenas um.

Isto é que eu chamaria de uma briga de titãs!

É bonito ver o marimbondo ciscando, ameaçando atacar de

frente. Derrepente ele voa e ataca a aranha pelo ar,

picando a bunda, e a aranha vai se enfurecendo, e o

marimbondo driblando a aranha e enfiando o veneno!

Parece uma luta de boxe, quando o outro está nas cordas,

"grogue", e é só jabear e demolir aos poucos.

Quase sempre o marimbondo vence. Tem as asas e o veneno, e

é escorregadio.

Não levaria nenhum livro! Tenho alguns poemas na cabeça.

Tentaria lembrar um a um, principalmente os que eu ouví na

minha infancia, ou que declamei!

Seria uma maneira de recordar com mais vigor, e reaprender,

fustigando a memoria, voltando aos tempos encantados de

criança.

Se não causar transtôrno - Vou observar com muita atenção -

eu tocarei alguns discos com madrigais, cantos gregorianos,

e as jóias do barrôco Italiano: Me bastaria!

Os pássaros gostam da musica feita pelos homens. Se alegram

com a nossa musica. Fazem uma festa. Os animais se

encantarão! Creio que até o pica pau de topete azulado vai

gostar de Vivaldi.

Se ele fica feliz com o canto do sabiá, tambem irá abençoar

as flautas e os bandolins de Vivaldi.

Janis Joplin, Tito Schipa, Maria Bethânia. Pelo menos um eu

tenho que levar!

Levarei Bethânia. Não saberia ser feliz sem Bethânia!

Joplin eu ouvirei nas lembranças mais doces do meu passado!

Schipa é divino! Vou ouvi-lo nas esferas. No lugar reservado aos querubins!

Construirei uma casa bem simples, da cor da paisagem, e com

as janelas pintadas de verde: Da cor das janelas da minha

infancia.

Pendurarei labiatas nas arvores maiores e plantarei algumas

roseiras.

As santas apreciam as roseiras. O lugar onde há roseiras, é

cheio de santidade!

Malva, mangerona e alecrim não faltarão. Nem o boldo e a

camomila!

Depois é só deixar a vida acontecendo. Tudo se ajustando ao

olhar de Deus!

Quem sabe eu escreveria uma bela canção?

Pra Maria Cantar?

Às Marias,

as que cantam, as que bordam

e que trazem beleza e simplicidade à terra.