O Guarda Municipal

O Guarda Municipal, em especial o vinculado ao sistema de trânsito, não é um guarda na acepção do termo. A sua função não é a de indicar o erro do motorista, orientá-lo para que a infração não se repita, multá-lo ou até perdoá-lo, conforme a importância ou gravidade do ilícito. A sua função precípua é a de autuação. Ele é um mero aplicador de multas. Está sempre com o bloquinho à mão. De longe verifica se o condutor não está usando o cinto de segurança, se está falando ao celular, se avançou o sinal e pronto: escreve. Não conversa com o infrator. Basta comunicar a ocorrência pelo formulário próprio que ela estará dentro de poucos dias na residência do motorista. Ele é tão insensível quanto os pardais eletrônicos ou outros dispositivos de multagem, abundantes em nossas vias urbanas ou nas estradas.

Mas qual a razão dessa conduta? Ela não é inerente ao GM. Ela é o resultado do atendimento à determinação de seus comandantes, normalmente recrutados no meio militar (oficiais da PM, por exemplo). Os guardas recebem ordem expressa de seus chefes para voltarem com o talão cheio de multas. Quanto maior o número de multas, maior o número de prêmios a que terão direito. Ou maior a possibilidade de ascensão funcional.

Tal como os dispositivos de fiscalização eletrônica, ao GM não compete preocupar-se com a possibilidade que tenha o indivíduo de ser educado a partir do cometimento da infração. Se ele foi vítima de uma fratura exposta, se teve um braço amputado ou se faleceu, estando o guarda por perto, é claro que ele prestará assistência. O que o pardal eletrônico jamais poderá fazer. Mas em ambos os casos o que interessa mesmo é a multa, aplicada como instrumento de arrecadação financeira de interesse do erário público.

Talvez possamos dizer que tudo isso acontece face à importância que damos ao automóvel. Basicamente fundamentada na nossa vaidade, que intencionalmente confundimos com necessidade. Muitas vezes, o que na verdade desejamos é impressionar o nosso vizinho, os amigos, os parentes. Para mostrarmos aonde chegamos. Para que nos tenham em maior conta. Afinal, quem tem alguma coisa é olhado de forma diferente. Também é verdade dizermos que desejamos o carro porque não dispomos de outras alternativas (bondes, trens, balsas, etc.). O modelo de transporte no país é o rodoviário.

Se o número de possuidores de veículos fosse igual ao número de analfabetos no país, a indústria das multas se encontraria na contingência de uma bancarrota. Ou teria como objetivo principal a orientação e educação dos motoristas, ao invés da arrecadação financeira.

Mas, além de vaidosos, somos masoquistas. Gostamos de sofrer. E, coitado, o GM é simplesmente um instrumento dos que detém o poder de satisfazer as nossas aspirações.

Aluizio Rezende
Enviado por Aluizio Rezende em 31/10/2011
Código do texto: T3308000
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