CALAMBAU SERESTEIRO

Calambau Seresteiro

#CoisasDeCalambau

Por: Murilo Carneiro

( História de Nossas Serestas)

Também conhecidas por serestas, as serenatas tiveram, em Calambau o seu momento de glória.

Até a década de 70, ainda havia algum seresteiro que se aventurava a acordar a sua amada com belas canções.

Pelo que nos foi transmitido pelos nossos antepassados, seresteiros famosos foram: Domingos do Morro, Chico Iluminato, Zé Domingos, Amantino e Geraldino Diogo, Vicente Ferreira, Chiquinho Ferreira, José Isabel e vários outros. Estes seriam os pioneiros, por assim dizer. Muitas vezes, o seresteiro era exímio no instrumento, porém não era um bom cantor. O cantor mais famoso, naquela época, era o Saulo Diogo( irmão de Amantino e Geraldino Diogo), na avaliação do senhor Benigno que, quando adolescente, participou de algumas serestas com ele.

Na década de 50, surgiram os filhos de Lourico Soares, principalmente, o Expedito e o João. Ambos exímios violonistas e por terem ido muito cedo para o Rio (especialmente, o Expedito) sempre traziam as novidades musicais para Calambau. O Expedito faleceu muito novo. Vindo doente do Rio, faleceu aqui em Calambau. Uma outra filha de Lourico também gostava muito de seresta, a Sinhá, cujo nome artístico era Maderleine Miranda, que foi cantora de rádio (Guarani de BH). Quando ela vinha por aqui era seresta na certa.

Ainda na década de 50, quando começamos a acompanhar os seresteiros, tínhamos os violonistas Raimundo Eloi ,Zinho Diogo, Tadeu e Bim de Bem-Bem (iniciando), Zé Lucila e outros.

No final da década de 50 e início de 60, faziam sucesso, nas serestas daqui, as músicas:

Sueli, Aquela Flor, Aniversário de Casamento (Dois Corações), O Ébrio, Índia, etc.

Nos anos 60, marcaram época o Inhô de Juca e as suas filhas. Quando saíam, faziam uma grande seresta com o bandolim do Inhô só faltando chorar...

A turma mais ou menos da minha idade quase toda semana fazia uma seresta. Era o Tadeu, Bim, Zim Diogo, Nonô de Feliciano Fagundes, Sonhô de Maria de Bela, Totinho Flores ( irmão de Patiágua), Zé Fernandinho (iniciando) e outros.

Certa noite, um integrante da turma havia levado um” fora” da namorada. Em frente à casa da mesma ele começou a cantar: “Risque, meu nome do seu caderno...” Qual não foi a surpresa da turma, quando a moça abriu a janela e disse: ”Já risquei há muito tempo ...”

Naquela noite não houve mais seresta, foi só gozação...

A nossa serenata tinha preliminar...no bar do Vicente Ferreira, do Zizinho de Olívio, e, mais tarde, no Bar do Hugo, em início de funcionamento, e vários botecos. A concentração era na alfaiataria do Armando Monteiro.

Com a chegada da CEMIG, as serestas sofreram um grande golpe, pois no escuro, só com a presença da lua e das estrelas, o ambiente era mais romântico...

Certa vez o meu pai, Zé Carneiro, convidou o famoso saxofonista Levindo Chagas para tocar uma valsa, na janela do quarto onde dormíamos com a nossa mãe Cici. O Levindo aproximou-se bem perto da janela e começou a tocar a valsa. Nós, meninos, quando ouvimos aquele som diferente, começamos a gritar . O Levindo Chagas interrompeu a seresta. Naquela noite não dormimos direito, pois achávamos que a qualquer momento aquele som voltaria...

Muitos namoros iniciaram-se após uma boa seresta...Quando não eram os pretendentes que cantavam a música preferida da namorada, eles arranjavam alguém para cantá-la.

De acordo com os linguarudos da Minas Caixa, eles pagariam caro para ouvir uma seresta cantada por mim, Silvério de Olívio, Hugo e Rubens de Leonídio, tal a nossa desafinação.

As valsas, geralmente eram longas...O Patiágua sabia uma, que ele começava a cantar aqui e só terminava quando chegávamos a Piranga. Algumas letras das músicas eram sinistras. O Totinho Flores adorava cantar uma que começava assim: ”Aço frio de um punhal, foi seu adeus prá mim..”.

O Zinho Diogo, exímio no violão, clarineta e vários outros instrumentos, era a figura mais procurada para as serestas no nosso tempo. Como antes das serestas era necessário tomar umas pinguinhas para aquecer e “abrir o expediente”, o Zinho resolveu abrir um boteco. Ficava próximo onde é hoje o posto de gasolina. Logo depois da inauguração, foi batizado pelo Roque Soares com o nome de “ Mentrasto”. Lá a pinga era guardada em gomos de bambus (bambu amarelo). Íamos para lá até chegar a hora da seresta, geralmente após a meia-noite. Muitas vezes o Zinho verificava que a palheta da clarineta estava quebrada, e aí tínhamos que abrir a “aula”(assim era chamada a sede da banda). Não me lembro como, mas a porta era aberta sem a chave e lá era retirada a palheta... A “aula” ficava próxima á casa paroquial antiga. De lá, iniciávamos a seresta com o Zinho na clarineta e o Tadeu no violão, além de outros que, de vez em quando, apareciam.

A turma, um pouco mais velha do que nós: Geraldo Diogo, Zé de Sérvulo, Patrocínio, Tarcísio de Cacau, João Cristo, Gecelmino, era uma turma boa de seresta. Algumas de suas músicas preferidas: O Ébrio, A última inspiração, Branca, E o destino desfolhou, Sertaneja, Noite cheia de estrelas . Algumas músicas não tinham nada de romântico e eram cantadas nas serestas: Santa Terezinha, Terra Virgem, Porta Aberta. Para se ter uma ideia, em Terra Virgem, vejam um trecho da letra: “ Oh meu Brasil para aumentar a tua glória, dia virá no teu futuro ascensional..... Na valsa Santa Terezinha ( na verdade é o hino à Santa Terezinha) a letra começava assim : “ Ainda bem pequenina, entre as Irmãs virtuosas, toda manhã, Terezinha vinha colher lindas rosas...”. Tais músicas nada tinham a ver com serestas...Na época, cantava-se um sucesso do Vicente Celestino cujo título era “Minha Gioconda”, que contava o romance de um Pracinha Brasileiro com uma italiana:- “Vejamos o exemplo de um Pracinha brasileiro, partindo para a Itália transformou-se num guerreiro...”

Outra coisa que descobrimos é que as músicas de Vicente Celestino foram as mais cantadas em nossas serestas nas décadas de 40 a 50. Algumas delas:

- Lua, Coração Materno, Meu Brasil, Última Estrofe, Patativa, Porta Aberta, Serenata, Minha Gioconda, O Ébrio, Noite cheia de estrelas, Ontem ao luar, Último beijo e muitas outras.

Pelo que constatamos junto a vários seresteiros, desde a década de 40, a música mais citada foi “Aquela Flor”, que se inicia assim :” Aquela flor que você me deu, eu guardo ainda no peito meu...”.Esta música foi gravada pela dupla caipira Alvarenga e Ranchinho. O interessante, também, é que, além do rádio (principalmente a Rádio Nacional do Rio) o que mais propagava aquelas músicas eram os circos que passavam por aqui, através de seus alto falantes que as executavam repetidas vezes. Em nossa cidade, os circos eram armados na Praça Cônego Lopes; na Praça União (em frente ao cemitério velho); no antigo campo da U.S.E (onde hoje existe uma quadra, na Rua São José).

Voltando ao tempo, verificamos que de 45 a 49 , os músicos que mais acompanhavam as serestas eram: José do Patrocínio Chagas com a sua requinta (clarineta pequena); Levindo Chagas (pai do Patrocínio) com seu saxofone; Zizinho Peixoto na clarineta e Raimundo Elói no violão. Naquele período, as músicas mais tocadas eram as valsas: Santa Terezinha, Saudade de Ouro Preto, Saudade de Matão, Lágrimas de Virgem, Coração Magoado, Carinhos de Mãe, Saudades de Ti, Branca, Saudade de Pádua e Ruth.

De 1950 a 53, os músicos seresteiros eram José do Patrocínio Chagas, Luiz Juliano (saxofone e clarineta) e João de Lourico ao violão. O Luiz Juliano, conhecido como Luizinho era filho do construtor da nossa Igreja, o Sr. Rafael Juliano. As músicas mais executadas por eles eram os boleros: Esterlita, Duas Almas, Eu nunca te direi, Três palavras, Quiçás, Frio n´alma; Petit Fleur(Fox), La Paloma, La Colondrina entre outras.

De 50 a 1955 tínhamos os seresteiros: José Chagas, Gecelmino Henriques, Geraldo Diogo, Dimas Diogo, Oto Batista da Silva e Sebastião de Lourico (violão). Os integrantes que não foram relacionados como músicos, anteriormente, quase sempre ajudavam na cantoria da seresta, principalmente debaixo da janela da amada...Nessa época estavam nas “ paradas seresteiras” as músicas: Índia, Meu primeiro amor, Aquela Flor, Meiga Virgem, É a ti flor do céu e outras. As duas primeiras foram os grandes sucessos da dupla Cascatinha e Inhana.

As serestas, geralmente, eram feitas nas noites dos sábados, mas havia as serestas especiais que poderiam ser em dias diferentes. Estas eram motivadas por: início de namoro, noivado, aniversário da namorada e outras datas relacionadas ao namoro.

Uma seresta especial ocorreu no dia 18 de setembro de 1955, em frente à casa de n° 70 na Rua São José: nessa data o seresteiro José do Patrocínio Chagas com sua clarineta e acompanhado apenas pelo violão do Raimundo Elói, comemorava o noivado com a senhorita Maria do Perpétuo Socorro França, a Corrinha. Tocaram várias músicas, mas as que ficaram marcadas foram: a valsa Lágrima de Virgem e o bolero Coimbra.

De um modo geral essas foram as recordações que conseguimos sintetizar após ouvirmos seresteiros de várias épocas, como: José do Patrocínio Chagas, Geraldo Diogo, José Romualdo Quintão(Zé de Cacau), Maria do Carmo Quintão, Tadeu Carneiro Peixoto, Tita Diogo e outras pessoas da cidade.

Muitas pessoas que foram seresteiras ainda estão na ativa. É só reunir um grupinho que as músicas vão fluindo...

E, aos seresteiros que já partiram, a nossa homenagem com os versos do autor da canção “Bardo” (o montesclarense Nivaldo Maciel)

Oh! bardo que cantavas docemente

Nas noites de tristeza e de luar

Oh! bardo que cantavas para as estrelas

Oh! bardo que não ouço mais cantar

Coro

A lua também tem, de ti saudades

Vem sempre visitar o teu jazigo

Se acaso a minha voz te vem magoar

Adeus: fica-te em paz, ó meu amigo.

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murilo de calambau
Enviado por murilo de calambau em 16/02/2012
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