Quando eu pensava que ainda podia ser princesa(EC)









Havíamos nos reunido, como sempre fazíamos, em casa de uma amiga. Éramos um grupo bem diversificado, mas harmônico. O objetivo de nossas reuniões era quase sempre o mesmo – buscar uma melhor qualidade de vida através do  autoconhecimento. Fazíamos o que se convencionou chamar de oficinas.Divertíamos-nos muito e também aprendíamos muito – a emoção sempre é uma boa mestra quando a gente consegue identificá-la. Naquela tarde, para encerrar a oficina, tivemos um momento de arte – deveríamos pintar o que quiséssemos da forma como quiséssemos, sem realmente nos preocupar com a qualidade artística – ou seja, a nossa arte seria apenas para revelar as emoções suscitadas pelo encontro. Já nem me lembro do tema do encontro, mas nunca vou me esquecer do que pintei.


Lembro-me que afixei na parede da garage de minha amiga uma folha de papel manilha. Lembro-me que fiquei pensando no que poderia pintar, já que essa nunca foi a minha arte. Lembro-me que fechei os olhos e me transportei para longe, no tempo e no espaço. Eu me transportei para um mundo onde eu ainda sonhava que podia ser uma princesa.

Uma cerca, sim, havia uma cerca de bambus já secos, mas pouco se via dessa secura, já que folhas verdes, bem escuras, cobriam-na toda. Um vão aqui, outro ali e dava para perceber o material com o qual a cerca fora feita. Aos poucos foi saindo da memória as flores, um rosa forte, quase vermelho, um vermelho rosado e se transportando para a folha de papel manilha – os brincos de princesa. E eu ali, frente à folha de papel manilha, pintando uma lembrança, me sentia como a menina-princesa, colhendo os brincos de princesa e os pendurando nas orelhas, presos pela haste ao pequeno brinco de ouro de bolinha, que era o único que me permitiam usar. E depois, amassando bem as pétalas das flores, a menina que se sentia princesa passou-as nos lábios e, bem ligeiramente nas faces e saiu andando pelas ruas sem medo do ridículo.

Não sei o impacto que minha pintura causou entre as participantes da reunião, mas sei o que causou em mim: estava linda. Levei-a para casa e ouvi, não me lembro das palavras nem de quem as falou: Dava até para colocar em um quadro. E quadro a minha pintura virou e eu a coloquei em um cômodo na área de lazer de minha casa. E lá ficou até o dia em que chegando lá, não a vi. Tinha despencado da parede e caído intacta, sem quebrar o vidro, atrás de uma enorme arca. E lá  também ficou por muito tempo e acho que ainda se encontra em algum lugar da casa, aquele lugar onde a gente vai juntando as coisas que não sabe o que fazer com elas.

Uma noite dessas cheguei na casa de uma amiga e mal o portão do jardim foi aberto eu os vi: os brincos de princesa que embalaram tantos sonhos de minha infância, estavam lá. E eu senti uma enorme vontade de pendurá-los em minhas orelhas e sair por aí.

Este texto faz parte do Exercício Criativo Flores de Minha Vida. Saiba mais e conheça os outros textos acessando : http://
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