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O mal da consciência


Ele nem havia se acomodado na sala quando ela partiu para cima dele esquecendo do jantar que lhe havia tomado duas horas de preparação, com pratos de porcelana à mesa e velas.

Com os lábios colados, ele ainda tentara argumentar quanto ao jantar, em ar de exagerado cavalheirismo, mas seu instinto de macho, próprio de homens adúlteros, o forçou a aderir à situação imediatamente, lançando suas mãos nas cochas arqueadas de Valéria. Não custou muito e todas as roupas íntimas estavam jogadas ao chão, e adornando os móveis da sala à meia luz, preparada por Valéria.

A arrebatadora e involuntária investida de Valéria, além dos delicados arranhões nas costas e perda de botões de seu terninho Armani, custou-lhe um abajur e um elefante de cristal posto na mesa de centro da sala, com a bunda virada para o sentido de entrada do apartamento. Pareciam não se ver há meses, mas tinham deixado a firma apenas algumas horas atrás. Coisa de amantes...

Ainda deitados pelo chão da sala, ela fez-lhe os costumeiros elogios, deu-lhe um beijo derradeiro e foi em busca de um cigarro que sempre deixava na sala de jantar. E ele disse:

- Você ainda vai morrer de enfisema pulmonar.

E ela, de costas ainda caminhando em direção à sala, retrucou sorridente:
- Desde que seja após uma noite destas, estarei satisfeita e contente.

A troca de carícias não se findava, até que resolveram saborear a comida que Valéria havia preparado. E já sentados à mesa, ela puxou o assunto:

- Dê, (uma espécie de abreviação de Denílson, como sempre o chamava), você vai adorar o que eu inventei.
- Sério? O que fez?
- Uma comida que você adora. Lombo assado, com batatas. Eu vou buscar, e você serve o vinho. Ela acrescentou.
Enquanto ela ainda estava na cozinha, ele pensava na comida da esposa, uma maravilha. Não tinha um amigo ou parente do Denílson que não gostasse. Enquanto Valéria era apenas uma ótima secretária executiva bilíngüe da empresa, sem qualquer dom culinário, mas Denílson nunca se importou em comer o que ela preparava. Sempre passava na farmácia antes de ir para casa. Afinal, esses antiácidos de hoje ... funcionam que é uma beleza.

Quando ela voltou da cozinha, ele já estava todo alinhado novamente, como se nenhum ataque tivesse sofrido. Um profissional-nato em bigamia, proibida e moralmente repudiada pelos chefes da conservadora empresa onde trabalhavam.

Até que a carne não estava tão ruim, se não fosse o excesso de sal, que obrigou Denílson comer em dobro o arroz, que nada tinha. O silêncio em torno da mesa, depois da expressão de delícia que forçou, sempre denunciava que cozinha não era uma especialidade de Valéria, e ela sabia reconhecer isso, apesar da habilidade de expressão facial de Denílson.

Após comerem, sentaram-se nos sofás da sala, ficaram algum tempo conversando e se afagando, despediram-se com um enorme beijo. Ela o acompanhou até a porta e ele foi para casa, depois de passar pela farmácia.

Ao chegar, notou que a mesa em casa ainda estava posta, mas foi direto para o quarto tomar banho, sem dar oportunidade à esposa para que pudesse de algum modo impedi-lo de fazer isso, mas ao entrar na suíte deu de cara com a esposa, e nesses momentos é que a coisa pega:

- Oi querido, chegou tarde.
- Éh! Fui no encontro de colegas do curso de “business and business”.
- Começou quando esse novo curso?
- Não lhe falei? Eu ganhei outro da empresa, mas deixa eu tomar um banho rápido e cair na cama.
- Não, você tem de jantar. Eu fiz lombo com batatas.
- Ahh! E, ainda sentindo a azia provocada pela coincidência e pelo excesso de sal, disse: - Que ótimo. Não vejo a hora de terminar esse banho, me dá licença.

Fechou a porta do banheiro, sentou em cima da privada tampada, e, com arrependimento leve, pensou: - Não posso mais fazer isso, a Marília não merece. E eu, por outro lado, não agüento mais jantar duas vezes.

Exatos trinta minutos depois, ele estava de hobby sentado para novamente jantar. E enquanto jantava a mulher assistia à televisão, e disse que durante a tarde tinha visitado uma vidente, e já sabia de tudo.

A batata entalou, ficou sem ar, escorregaram lágrimas pelos olhos, mas não queria que a mulher se preocupasse com ele. Poderia até morrer naquele instante, e ainda sim evitaria pedir ajuda a ela, já que a ajuda poderia vir através de um estrangulamento ou algum objeto arremessado, então forçou a goela e conseguiu sobreviver; em seguida expirou longamente em tom de agradecimento por ela estar de costas para ele, sentada no sofá. Bebeu água e dissimulado, não tendo como evitar a discussão, disse:

- Sabe o quê?
- Não seja cínico, Marília respondeu. E ainda complementou: Não vou ficar descontente. Eu já suspeitava. Sabe que eu não sou besta?
Já entregando os pontos, Denílson se denunciava ainda mais com suas respostas bem formuladas e disse:
- Você vai acreditar em uma vidente?
- Não foi só a vidente que me fez pensar nisso.

Então a culpa aflorou e Denílson, aproveitando o ar amistoso da conversa, disse:
- Sabe de tudo então?
- De tudo.
- E o que vai fazer?
- Nada. Deixa rolar e eu finjo que não sei de nada.
- Você não vai querer que eu vá embora de casa?

Marília levantou abruptamente, olhou bem nos olhos de Denílson e disse:
- Do que está falando?
- Da Valéria.
- Que trabalha com você?
- É.
- Você e ela?  Meu Deus.... Eu não posso acreditar. Eu tinha certeza que não era só as coisas do trabalho que justificasse tantas ligações.
- Mas você disse que não iria fazer nada. Iria fingir que nada tinha acontecido. O que foi agora?
- Seu idiota. Eu falava da minha festa surpresa que iria acontecer no sábado. Peguei os recibos na gaveta do quarto e no seu talonário de cheques estava escrito “Festa para a Má”.

Em seguida, o vaso espatifou na parede atrás da mesa, o cinzeiro, todos os enfeites do rack... e, por fim, o casamento, tudo por culpa simplesmente do sentimento de culpa.
Márcio Gustavo Pereira Lima
Enviado por Márcio Gustavo Pereira Lima em 19/01/2007
Reeditado em 05/05/2009
Código do texto: T352289


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Sobre o autor
Márcio Gustavo Pereira Lima
São Bernardo do Campo - São Paulo - Brasil, 40 anos
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Márcio Gustavo Pereira Lima