Um Bom Dia

Um Bom Dia







Num bom dia, eu consigo pegar minha canoa e remar cedinho nas águas da baía, sinto os meus músculos participando no deslocamento da pequena embarcação, a água parece uma galáxia líquida e o horizonte me saúda: olá, pequeno viajante, sinta-se em casa.

Num bom dia, tudo conversa comigo.

Em outra vida me chamei Bepo, era burro como uma porta e forte como um touro. Cortava cabeças para me divertir, em dias bons ou ruins.

Hoje fico satisfeito quando sobra uma porção de água fervendo, depois de feito o café, para limpar a cafeteira.

Deixo a canoa na praia e olho para trás, para onde está o horizonte. Ele me saúda de novo. Ele adora essa brincadeira. Agirá assim o dia inteiro, faça sol ou chuva.

As águas da baía são esplêndidas, embora palavra alguma consiga adjetivá-las corretamente.

Num bom dia cantarola-se: “eu vou voltar pra lá, vou cantarolar...”

Noutra vida fui um soldado lazarento que morreu despedaçado numa trincheira cheia de lama. Era jovem, com tantos planos pela frente.

Um bom dia é como uma letra de música, dessas perfeitas, cada um tem a sua.

Num bom dia não se envelhece, vá por mim, conheço os bons dias como o ourives dedilha o engaste.

Noutra vida fui judia. Mulheres... Tem o corpo das emoções deveras acentuado e ainda por cima dão à luz. Nos templos secretos não raro vê-se a imagem de um casal, o macho carrega um cetro, ela, uma bola de cristal. Foi uma encarnação difícil, havia algo muito importante a ser aprendido.

Num bom dia não se aprende nada, não se ensina nada, em nada se esbarra, complica ou implica, vive-se flutuando como uma bolha de sabão ao léu.

Num bom dia, mesmo se chegar atrasado num compromisso, isso acaba se constituindo em acerto. Vale a mesma medida se chegar adiantado. Dias assim vão se desdobrando numa sucessão de pequenos milagres que se encaixam feito as pétalas na margarida.
Ridículo supor que eu tenha alguma participação nesses milagres, exceto o milagre de percebê-los.

São nesses benditos compartimentos situados entre o nascer e o por do sol que me vejo livre das pré-ocupações com o futuro e o passado só bate à minha porta na forma de doces, suaves lembranças.

Numa outra vida me chamava Ploc, o Grande, tinha 2 metros de altura e aterrorizava as crianças da aldeia. Noutra vida ainda também tive 2 metros de altura, mas meu coração era manso e foi preciso refugiar-me num mosteiro, pois ninguém entendia um coração tão manso. Ao cabo de um tempo os monges me mandaram embora, pelo fato de ser grande e comer muito. Naquela vida morri de fome e de frio com o coração confrangido.

Num bom dia as pessoas me perguntam se é um bom dia e eu as poupo daquele artifício mediano que indaga: o que você acha? Eu lhes digo positivamente: sim, é um bom dia.

O final perfeito dessa jornada só acontece quando eu lhe dou um abraço apertado, e ficamos mudos, você e eu, um bom dia carece de pouquíssimas palavras, e nesse abraço sinto o ser que pulsa sob a sua pele e a boa intenção que você tem para com a vida, esse abraço e essa sensação me dizem: sim, só nós sabemos o quanto nos gostamos.

Espera-se que esse dia não termine nunca, ou, ao menos, que a noite seja tão boa quanto o dia.

(Imagem: Carlos Bourdiel, Entardecer em Bertioga. Aquarela sobre papel)




 
Bernard Gontier
Enviado por Bernard Gontier em 23/03/2012
Reeditado em 20/07/2021
Código do texto: T3571557
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