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NA TELA DO AGRESTE


Por que tanto sol e este mormaço abrasivo, no dorso do retirante que busca um novo horizonte um roteiro em seu destino?

Vista panorâmica de assimétrico traçado. Área vasta e exaurida, despojada de vegetação e de esperança.

A mansidão azul do firmamento, paradoxalmente, não transmite serenidade, apenas inquietação e mau presságio.

O solo árido, inóspito e agressivo, arde sob a luz de um sol causticante, implacável, desprotetor.

Sinalizando vida, apenas alguns pés de Mandacarus, cactos, embiras, e espinhais. Tesos, pontiagudos, desafiadores!

De raro em raro, tépido sopro da brisa levanta uma poeira barrenta, pesada e pegajosa.

Aqui e além, espaçosamente, casebres e barracos abandonados traçam a crônica do flagelo da seca em nosso sertão nordestino.
Árvores despidas de ramos e de folhagens, com esgarçados galhos, projetam, no fundo da paisagem, imagens dantescas e retorcidas.

No mais, só a longa estrada de terra batida  onde transitam grupos, de homens, mulheres e crianças de lentos e inseguros passos. Sem perspectivas e sem rumo certo. Destino ignorado.

É o êxodo!  Inevitável retirada de uma população que deixa seu Torrão Natal tangida pela fome e pela sede.

Legítima batalha para garantir a sobrevivência, o direito de uma nova morada; o dever de resistir, de competir e trabalhar.

Sem querer partilhar da crueza do exílio acatada por seu povo, Juca decide enfrentar, com  disposição e coragem, o desafio da sorte. Aguardará a passagem do rigoroso estio sem “arredar pé” do pedaço de chão que ainda é seu.

A noite já se avizinha. Cresce a quietude a cada instante e  sempre é mais intensa a emoção que se instala no ambiente.
O silêncio agora só é quebrado pelo bater de asas das aves noturnas, pelo mugir soturno das reses agonizantes e o ruído abafado de passos que se distanciam na estrada.

O espectro da morte como que espreita por detrás das moitas e dos galhos retorcidos.

Quase sufocado pela solidão, o intrépido nordestino ajoelha-se contrito, em fervorosa prece. Ergue-se, a seguir, estendendo a vista pelo firmamento, em busca da resposta desejada.

Alucinação ou delírio, quem sabe? O certo é que, neste momento, nuvens carregadas se avolumam, transformando o infinito em manancial de esperança.

Tronco retesado, braços abertos, mãos espalmadas para o alto, a silhueta na penumbra lembra a imensa cruz fincada na terra ressequida e de rachaduras profundas.

Não há registro de quanto tempo até Juca permaneceu na mesma posição.

De certo, tempo suficiente para serem abaladas as mais sagradas crenças e desmoronados os verdes sonhos construídos pelo último dos RETIRANTES.
Maria Arlinda Moscoso
Enviado por Maria Arlinda Moscoso em 24/01/2007
Código do texto: T357171

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Sobre a autora
Maria Arlinda Moscoso
Salvador - Bahia - Brasil
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Maria Arlinda Moscoso