A mulher empacada
Eu não era assim, tão empacada. De uns tempos para cá começo a escrever qualquer coisa e não passo dos  primeiros parágrafos. Vejam só alguns exemplos, do que não consegui fazer ir pra frente.

*Já fui uma ratazana de biblioteca nos meus tempos de vacas magras e lia compulsivamente tudo o que me caía nas mãos ou em que eu batia os olhos, com tamanho desespero que só se justificaria se eu tivesse a certeza que estava pela hora da morte e não quisesse deixar nada sem ser lido. Depois que passei a ganhar meus próprios caraminguás abri mão de freqüentar bibliotecas e tornei-me uma compradora compulsiva, porque adquiro muito mais do que consigo ler. Por necessidade espacial estou me desfazendo de uma grande parte de minha biblioteca, sem dor no coração e até diria, me sentindo bem, porque o destino dos meus livros está sendo duplamente útil, tanto para quem os vende como para quem os lê. O destino, é óbvio, é um sebo.
( O desfazimento)


*Rever velhas fotos e sentir-se encantada. Teria mesmo eu sido esta menina bonita? Desde pequena uma carinha séria como se carregasse o segredo do mundo por trás das pálpebras. Não são muitas as fotos do tempo de infância, um tempo sem máquinas digitais, em que era preciso um fotógrafo profissional para tirar as fotos. Nada de escolher para depois revelar só as preferidas. Nada de deletar aquelas que não foram do gosto. Mistério e surpresa rondavam cada foto tirada e o que viesse tinha que ser guardado. A primeira foi aos nove meses, sentada em uma cadeira, alguém segurando por trás, de quem só se vê, com muito esforço, a mão. Depois vieram outras, sozinha, com um irmão, dois irmãos, em grupo familiar, na escola. Nem dá para acreditar que fui criança um dia, carregada no colo, cuidada, mimada. (A Caixa de retratos de minha infância)

*Meu texto mais lido é Letra Bonita com 21726 entradas – prestem atenção no que eu disse: entradas – eu não disse leituras. Sei bem que entradas não significam exatamente que o texto foi lido. Também sei o que procuravam nesse texto – como ter uma letra bonita. Tive 33 comentários. Dois não identificados ficaram bravos comigo – um chamou – me de idiota. Mais exatamente, Sua idiota. Outro  uma sucessão de letras sem sentido. Tive porém o prazer de reler os comentários de dois recantistas que hoje escrevem em outro plano: Seu Pedro e Fernando Brandi. (Meu texto mais lido)

*Já vi a frase atribuída a Tolstói e Pushkin. Segundo uma versão Gogol fez a pergunta a Pushkin – O que fazer para ser um escritor Universal?  A resposta curta foi: escreva sobre sua aldeia.
Para aqueles que me dizem que o mundo de hoje está perdido, tamanha é  a confusão reinante, eu aconselho a ler a Bíblia.
Estando o Universo  contido em uma pequena aldeia  ninguém precisa sair de um lugar desses, aparentemente preservado, para conhecer toda grandeza e miséria do ser humano. Da mesma forma, tudo que acontece hoje já acontecia nos primórdios. (Notícias de minha aldeia)

*Acabei de ler hoje, dia 15 de abril de 2012 o livro de crônicas de Clarice Lispector. Comecei em fevereiro. São 480 páginas. Já li livros maiores em pouquíssimo tempo. Esta é a vantagem dos livros com narrativas curtas, a gente pode curti-los em doses  mínimas. Este, teoricamente é de crônicas. Teoricamente porque nem ela mesma consegue conceituar o que escreve. Ora parece um conto, ora uma crônica. Pode ser uma reportagem, um artigo. Sã o 486 títulos, alguns agrupados em um mesmo dia para ocupar todo o espaço que lhe era devido. E eu que pensava que a Marília Paixão (cronista do RL) é quem tinha inventado esse negócio de crônicas curtinhas.( A descoberta do Mundo: Clarice Lispector)

* Na vitrine um cartaz chamava atenção: Temos enxovais para bebês completos. Tive que me conter porque a vontade era entrar e fazer uma gozação, mas pensei que qualquer gozação escambaria para alguma brincadeira de mau gosto e certamente não politicamente correta. Afinal, o que seria um bebê completo? (Vitrines)