Ulisses
 
Ulisses é nome de família, assim chamava um de meus bisavôs, materno e voterno, Ulisses era o nome de um tio muito querido que cedo foi realizar a sua Odisséia no Mundo Superior, Ulisses também é o nome de dois primos de minha mãe e pasmem, também de uma prima que, para o nome ficar feminino foi precedido de Maria e para ficar mais feminino ainda acabou se transformando em Licinha. Todos Fernandes, sobrenome que não recebi, mas de cuja grei faço parte. Portanto não é de se admirar que desde cedo em minha vida eu tenha me interessado por dois Ulisses famosos: o Rei de Ítaca, marido de Penélope, aquela que é o símbolo da fidelidade feminina já que o esperou por longos anos durante a Guerra de Tróia e sua volta para casa (Ítaca) e também o monumental livro de James Joyce que muita gente tem ou cita, mas pouca gente leu, bem assim como eu, que tenho um do Círculo do Livro, edição da Abril, traduzido por Antonio Houaiss. Esse livro foi escrito em sete anos e se passa em dois dias, começando às oito horas da manhã do dia 16 de junho e terminando pouco depois das duas da madrugada do dia seguinte. São dezoito capítulos e cada capítulo se passa em uma hora o que me leva a pensar que é um livro que pode ser lido em dezoito dias, principalmente por gente como eu que não gosta de deixar um capítulo pela metade. Só não sei em quantos anos.

James Joyce escreveu outros livros marcantes como Dublinenses (contos) e os romances Finnegans Wake e Retrato do Artista quando Jovem. Em sua homenagem, em muitas partes deste vasto mundo, no dia 16 de junho é comemorado o Bloomsday, ou seja, o dia de Bloom, Leopold Bloom, o Ulisses de Joyce. Inclusive no Brasil e quando se fala em Brasil, em matéria de cosmopolitismo se fala em São Paulo, onde o evento já está na vigésima quinta edição. Mas Belo Horizonte este ano também não ficou atrás com um programa no mínimo curioso porque o tema foi: Vamos comer James Joyce, vamos devorá-lo.

Ulisses é o nome romano do herói grego Odisseus, daí o nome da obra do grego Homero, Odisséia, baseada na tradição oral. É uma história de viagens fantásticas, narrando a volta de Ulisses para o seu reino (Ítaca), onde o aguardam o pai Laerte, a mulher, Penélope e o filho Telêmaco. Vinte anos é o tempo que dura a viagem de Ulisses, desde a sua partida para a guerra (Tróia) até a volta para casa. Merece Penélope a fama de mulher mais fiel do mundo, já que os adversários do seu marido, que o consideravam , faziam tudo para conquistá-la e ao Reino.

O Ulisses de Joyce é Leopold Bloom, homem comum, igual a qualquer outro, mas dentro de Bloom um turbilhão de pensamentos e sentimentos enquanto ele vaga pelas ruas de sua cidade, mostrando a perplexidade do homem do século vinte. Mas na verdade Ulisses/Leopoldo apenas são o reflexo do autor, James, em sua viagem pela Vida. E mais uma vez se comprova que, por mais que nos ocultemos atrás das palavras, é ela que revela a nossa verdade interior. Podemos negar jurando, mas será de pés juntos e dedos cruzados. Podemos negar, mas será em vão: se cada um de nós que recebeu (ou buscou) o dom da escrita quisermos nos conhecer realmente, será através de nossos próprios escritos. E é aí, no autoconhecimento que temos a grande oportunidade de viver nossa própria Odisséia, a viagem fantástica que é a vida de cada um de nós, de volta para Casa.