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Meus Amigos! ( O ˇbvio ululante )

          Por conta de um São Pedro boa-praça, todo ano sou presenteado com o direito de encontrar dois amigos que já se foram. E mais: no lugar e hora que eu escolher. Sinto-me o próprio Bandeira em sua Pasárgada.
          Este ano, justo na hora que apavora e no terreno baldio onde a cabra vadia devora pacientemente a paisagem, marquei com o Nélson Rodrigues e o João Saldanha. Meio atrasado, pego um táxi imaginando a sangria da corrida. Levo comigo uma garrafa térmica com café fresquinho moído na hora, um litro de uísque e vários maços de cigarros. Entro e disparo:
- Toca prá Vaz Lobo!
- Vaz Lobo, doutor?
- O que há, rapaz? Eu posso pagar!
O chofer fecha a cara e toca para o mais subúrbio de todos os subúrbios carioca.
          Chego e encontro os dois numa discussão feroz por conta de um Fluminense e Botafogo que eu não pegara. Nélson, tricolor até a medula, provocava o velho João, botafoguense desde quando ainda era um espermatozóide, com uma goleada imposta ao time alvinegro.
Ao me verem, calaram-se e abriram os braços. Nélson adiantou-se:
- Professor, um ano lá no céu parece uma eternidade inteira! Como vão as coisas?
Depois dos abraços, devolvi-lhe:
- O futebol brasileiro morreu, Nélson!
Já sabiam. Olhando-me, João fez uma cara de tristeza como se o finado fosse eu. Pegou-me pelo ombro e, caminhando comigo pelo terreno, tenta me consolar:
- Professor, não ganharemos mais nada!
Enquanto toma um café, Nélson emenda:
- Nem campeonato de botões, professor!
          Vejam vocês, o reacionário convicto e o comunista roxo tentavam me consolar e apagar a saudade que eu sentia dos seus comentários sem panos-quentes e sem a subserviência abjeta da maioria dos comentaristas atuais.
Enquanto o Saldanha acende outro cigarro e dá uma bicada no uísque, Nélson dispara:
- O comentarista de hoje é uma besta!
Sorridente, Saldanha provoca:
- Nélson, quem de hoje jogaria no time de 70?
Com uma cava expressão, o autor de " O véu de noiva " retrucou:
- Nem como roupeiro, João! Nem como roupeiro!
Estávamos tristes. O tão esperado reencontro transformou-se numa espécie de velório de marido traído. Foi quando a cabra vadia devorou a última estrela.
Aldo Guerra
Enviado por Aldo Guerra em 23/06/2012
Cˇdigo do texto: T3740402

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Sobre o autor
Aldo Guerra
Rio das Ostras - Rio de Janeiro - Brasil, 64 anos
296 textos (27975 leituras)
3 ßudios (571 audiš§es)
(estatÝsticas atualizadas diariamente - ˙ltima atualizašŃo em 08/05/21 15:44)
Aldo Guerra