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Melhor ainda

- Que didática! Que aula! Eu quero ser igual a ela. Não. Eu vou ser melhor que ela.

Éramos um grupo de jovens universitários boquiabertos e preguiçosamente jogados numa cantina. Havíamos, há alguns minutos, sido bombardeados pelo que provavelmente tinha sido a melhor aula da nossa curta vida. Essa professora (substituta, quem diria) chegou inesperadamente para deixar a classe boquiaberta com sua competência... E, após uma amostra do que seria um semestre promissor, estávamos matando o cansaço e nos indagando se nós, reles acadêmicos recém-chegados à universidade, chegaríamos a um patamar assim, algum dia.

Ainda melhor que ela! Uma meta alta, talvez beirando a arrogância. De metas altas em metas altas foi que construí minha vida. Nunca me contentei com pouco, e sempre estou aberta à possibilidade de ir mais além. Os empregos cobiçados, as grandes realizações, as pessoas mais difíceis são combustível para mim. É que algumas pessoas são dotadas de uma capacidade de querer que parece não ter limites. E, assim, minha personalidade se acostumou à ânsia (martírio e deleite) de estar sempre perseguindo alguma coisa.

Tem lá suas vantagens. Malhar desenvolve músculo. Quando você se vê lutando por algo que quer, às vezes até achando que vai conseguir (às vezes, conseguindo!), ganha essa sensação de força. Deixa-se de ser a pessoa que evita conflitos para ser a pessoa que (pode até evitar conflitos, mas) sabe que, se entrar na briga, derruba 6. E tem orgulho de si.

Mas aí tem o lado obscuro de toda essa valentia: a eterna frustração de não estar, jamais, satisfeito. Porque, mais do que nossas paixões querem nos deixar acreditar, o ser humano é uma pobre criatura imperfeita e necessitada de limites. Limites, inclusive, para o bom: limites para o prazer, para a independência, et, voilá: até mesmo para as nobres metas.

Não faz bem a você comer tudo que quer, ter uma conta bancária ilimitada, , et, voilá: não te faz bem sonhar o tempo todo em mover montanhas. Enquanto se empenha arduamente em conquistar terra e céu, você perde a vista de até onde subiu.

Até aqui, nada de novo. A gente sabe que tudo precisa de limite. Problema é: como estabelecê-lo? Que salário é ideal para você? Quando se decide que a pessoa ao lado é a paixão da sua vida, quando se bate o martelo de que já realizou o suficiente na carreira? Você já aprendeu tudo o que deveria? Já é o melhor que pode? E enfim: quando poderá contemplar sua vida e dizer: “é suficiente, sou feliz!”?

Eis o ponto: quanto menor a expectativa, maior a gratidão pelo que quer que surja. Quanto maior a gratidão, mais sensação de plenitude. E assim, o segredo da paz estaria em não inventar de querer o difícil. Coisa que pra mim nunca funcionou muito porque pareço ter só dois modus operandi: trabalho apaixonado e preguiça total.

O desejo é a gênese desse desequilíbrio que dá enredo à vida e toca nossos dias para frente. E de querer, entendo muito bem. Disso eu daria uma aula. Até melhor que a dela.
Jéssica Callou
Enviado por Jéssica Callou em 19/08/2012
Código do texto: T3838442
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre a autora
Jéssica Callou
João Pessoa - Paraíba - Brasil, 33 anos
45 textos (145705 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 06/05/21 18:57)
Jéssica Callou