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O ASNO

O asno chegou sem avisar e sem fazer barulho. Quando os presentes se deram conta, o asno já estava lá, junto deles, sentado e parecendo interessado. Não falou nada até o momento em que se sentiu seguro o suficiente para, quem sabe, dominar o ambiente. Quando falou, dominou o ambiente.

Que fique claro que a conclusão de que era um asno que havia entrado naquela sala somente chegou aos presentes bem mais tarde, quando já era tarde demais. Geralmente a conclusão clara do que realmente está acontecendo chega bem tarde. Com a chegada do asno não foi diferente.

Falava com gestos e tomou o lugar do orador. Expôs suas idéias com palavras complicadas, não familiares para um asno. "Talvez estivesse imbuído de uma inspiração divina", pensariam alguns mais tarde, após a chegada da conclusão de que era um asno que havia passado por ali e que tentara incutir em suas mentes aquelas letras fantasticamente combinadas.

O absurdo tomou conta daquele espaço, mas ninguém se deu conta no momento. Todos estavam de boca aberta com a eloqüência, com a perspicácia e, porque não, com o charme daquele asno. Tomou o lugar como se lhe pertencesse. Como se fossem seguidores seus, encarava os presentes e lhes jogava na cara expressões sérias e pensamentos incoerentes.

Vociferava argumentos fáceis. Recolhia a saliva do canto da boca após cada fechamento de idéias. Mexia o corpo numa coreografia quase ridícula e fora de propósito, mas que só fazia aumentar o interesse dos ouvintes. Seus braços e mãos apontavam para o vazio que era preenchido completamente pelas palavras que se tornavam quase palpáveis.

O caos esteve a ponto de invadir, junto com a balbúrdia e com a legião de ofensas que certamente o seguiriam. Faltou apenas o convite final. Um deslize qualquer ou uma palavra fora do lugar, fariam o asno se revelar. Mas não...

O discurso firme e imponente hipnotizava a todos. O asno encantava. E o final, adiado até o limite do abismo, chegou de repente. O asno agradeceu a atenção e deixou a platéia sozinha com seus pensamentos e conclusões. Uma delas: o asno havia chegado sem avisar e sem fazer barulho.

E em sua empreitada diurna, visitava uma sessão após a outra, espalhando o que não era seu e querendo sempre mais. Contava com a sorte e ela não o abandonava. Nada o desmascarava. Nada o desmotivava. Aliás, a complacência dos que o ouviam era o seu principal combustível.
Rafael Zanette
Enviado por Rafael Zanette em 02/08/2005
Código do texto: T39689


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Sobre o autor
Rafael Zanette
Florianópolis - Santa Catarina - Brasil
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Rafael Zanette