D O M I N I Q U E

           (Texto reeditado  -  fotos  do  autor)

Enfiado numa sandália modelo franciscana,aquele pezão, apoiava-se ao assento da cadeira de palha.
A batina marrom escuro esvoaçava ao vento da tarde.Os dedos dedilhavam um violão.A canção era festiva,animada...Sentados nos degraus ,meninos e meninas com idades oscilando dos 9 aos 12 anos acompanhavam com batidas de mãos os acordes do violão do padre capuchinho.
Era dezembro.Maria Cristina ou,"irmã Maria Cristina" melhor dizendo,espalhava num dos cantos da capela o papel chapiscado de tintas em cores variadas.
Aperta daqui,aperta dali e como resultado final esperava-se o efeito de montanhas ao redor do pequeno casebre encoberto de palhas,sob o qual a sagrada família já se havia instalado.
Irmã Maria Cristina ,com seus quase 60 anos,passava longe dos padrões pré estabelecidos para definir beleza física.Estatura mediana,dentes salientes(hoje ela usaria aparelhos) e miopia acentuada que obrigava-lhe o uso de óculos com lentes garrafais.
Em contrapartida à tudo isso: Alegria,delicadeza,bom humor e sensibilidade esbanjavam-se em seus gestos .Assim, anulava-se qualquer julgamento que se tentasse fazer-lhe à cerca do aspecto físico.Com tantos atributos a seu favor era ela um ser humano lindíssimo!
As mãos do padre continuam a dedilhar o violão. As dos meninos a acompanhar os compassos vibrantes da melodia.
Maria Cristina “ dá um tempo “ às montanhas de papel tingido.
O longo corredor abre-se diante do olhar míope da religiosa.
Os acordes da tarde se lhe oferecem na forma de convites irresistíveis.
As vestes brancas. Imaculadamente brancas! Branco é o corredor imenso escorrido de samambaias entre uma coluna e outra.
Maria Cristina extravasa! Singra o pavimento de piso avermelhado feito menina em saída de escola.Vem saltitante! Os pés alternam-se entre um pulinho e outro.A alvura sem máculas das vestes volteia uma dança pelo ar.
Junta-se ao grupo.Bate as mãos,incentiva e canta:Aquela voz é toda alegria na tarde de dezembro.
Estimulado,o sacerdote crava com mais firmeza os dedos nas cordas do violão.Meninos entusiasmam-se e um coral de vozes entoa sob a batuta de Maria Cristina:
"Dominique..Nique...Nique,sempre alegre esperando alguém que possa amar.O seu príncipe encantado,seu eterno namorado que não cansa de esperar".
Nas paredes do colégio refugiam-se os refrões de Maria Cristina mais o alegre grupo de crianças. Acontece o milagre da multiplicação e ,de súbito , na acústica daqueles compartimentos milhares de vozes ecoam ,propagam-se no ar.
É a boa nova de dezembro antecedendo o natal.Uma doce ternura viajando em emoção que não se explica.Esta página é rascunho da história de um sábado qualquer num tempo longínquo arquivado no início dos anos sessenta.
Novembro/2010. Domingo.
Sempre aos domingos,aquela velha mania (minha,é claro) de revirar gavetas.
É tarde.Uma tarde que traz em seu bojo alguns ares semelhantes àqueles aspirados nas escadarias do número 300 da avenida Arlete Richa em tempos idos.

Por um instante experimento a alegria dos acordes.A lembrança veste-me calças curtas,lambe-me os cabelos e um vento refrescante ativa-me na boca aquele mesmo sabor de menta.Há um menino de nariz sardento ao meu lado. Sua irmã,de tranças louras,abre-me um sorriso farto onde falta-lhe um dos dentes.A franjinha lhe cai um pouco acima dos olhos graúdos e a voz estridente berra,literalmente,na tarde: Dominique,nique,nique...
Vou revirando meus guardados:Deparo-me com um livro adquirido em 2006 na feira estudantil.O título não poderia ser mais romântico:"Por onde andou meu coração?" de Maria Helena Cardoso. Boa pergunta,rsrs...Outros vão surgindo:"Clarões da Noite" de Olga Grechinski Zeni. A “dona Olga”.De olhar manso,voz pausada,poesia andante,com quem se cruza vez e outra pelas esquinas ,e isso é privilégio nosso.Irati orgulha-se de sua poetisa maior. "Minha vida,nossa história" de Gaspar Valenga.O "Seu Gaspar".Grande figura! A lembrança que me ocorre foi de nosso mais recente encontro numa solenidade de lançamento de livro.Estávamos de saída .A tarde caía bela como só mesmo na terrinha.Um céu de caqui deitava-se atrás do morro das comunicações e,impecável, Seu Gaspar cantarolava trechos de uma antiga canção mencionada num de seus livros.Subitamente,aquele mesmo gesto.Uma das mãos retira do bolso do paletó a conhecida bala de hortelã, sua marca registrada e,uma vez mais, a boca experimenta o frescor da infância.As crônicas do mestre "Orreda".Lugar comum é falar de seu talento.Lirismo e poesia , ímpares,é o que observa-se fartamente impregnados nas páginas que passeiam agora em minhas mãos.De resto, bugigangas,retratos,recortes de jornais...Alguns CDS vão aparecendo: "Demis Russos","Enya","Creedence" e outros mais.Junta-se à estes , uma coletânea no melhor estilo brega onde destaca-se a canção “Dominique !" Não fora por acaso que estas reminiscências vieram à tona.Se este CD (pirata legítimo) ainda toca,é o que irei conferir.Em caso afirmativo,ouvi-lo-ei e , até dar-me-ei o direito de cantarolar junto.Que "incorpore-se" nesta tarde de domingo toda animação e musicalidade daquele sábado já descorado na sépia dos anos.
Que desperte-me a porção menino adormecida e junte-se num alegre extravasar.
Posto que o nosso lado criança entoará para sempre uma canção do tempo,que seja esta, o alegre :"Dominique...Nique...Nique...