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Certa vez em uma reunião de trabalho no interior de São Paulo, em uma confortável sala de reuniões de um belo hotel, estava sentada em uma cadeira junto a várias mesas que estavam organizadas em uma disposição que lembrava a letra U, eu e mais dez colegas homens vivenciamos algo inusitado.

Era uma dessas reuniões que as empresas gastam muito dinheiro proporcionando aos seus funcionários alguns dias de trabalho em local de luxo que, infelizmente, eles mesmos com seus próprios recursos não poderiam pagar para estar com suas famílias. A força de vendas desta empresa era composta por cerca de 400 representantes comerciais, divididos em grupos regionais e subdivididos em equipes de no máximo 12 integrantes. Eu fazia parte da equipe que atuava no interior do Rio Grande do Sul.

A reunião que eu participava tinha por objetivo apresentar os materiais desenvolvidos pelo marketing que seriam utilizados nos próximos meses em nossas atividades comerciais e nos estimular a alcançar as metas de vendas, motivando-nos.

Eu, a única mulher daquela equipe, com vinte e poucos anos, tinha por hábito observar as reações de meus colegas homens.

Estávamos há dois dias na cidade de Águas de Lindóia, e após o almoço fomos para a sala designada a nossa equipe, para darmos continuidade aos trabalhos que haviam começado na manhã daquele dia.

Observei que a face de meu chefe estava um pouco tensa e logo percebi que viria alguma reprimenda. E foi exatamente o que aconteceu, pois alguns membros da equipe haviam cometido um erro "gravíssimo" que ele não poderia deixar passar em branco.

Senti vontade de fazer xixi e percebi que aquele momento não era o ideal para afastar-me da sala.

Na equipe não tinha nenhuma colega mulher que pudesse entender a minha aflição, que pudesse passar um bilhete ou cochichar o meu grande problema, todos eram do sexo masculino e homens não entendem sobre a vontade de fazer xixi das mulheres. Se tivesse um colega mais sensível, pois todos eram do tipo gaúcho machão, também não poderia narrar o meu drama pessoal, pois não era de bom tom.

O chefe estava muito brabo e começava a levantar a voz alterando-se mais e mais. A minha vontade de fazer xixi aumentava diretamente proporcional a brabeza que ele nos demonstrava.

Necessitava entender o que estava acontecendo ali, que erro grave aqueles dois colegas haviam cometido, mas minha vontade de fazer xixi me desconcentrava. Então fiz um grande esforço para prestar atenção.

O assunto girava em torno do valor de saque da conta de ressarcimento de despesas que cada funcionário dispunha. Como uma nuvem que vai navegando rumo ao horizonte, deixando passar alguns raios de luz, tudo foi clareando pouco a pouco.

O grande erro dos meus dois colegas é que ambos não sacaram o valor exato de suas despesas, tiraram uns centavos a mais, ou a menos, para arredondarem o valor e poder sacar o dinheiro no caixa 24 horas sem enfrentar filas demoradas.

Ops! Eu também havia feito isso... Saquei o valor  menor do que a despesa e deixei alguns centavos na conta. Aquela bronca também era minha e devido a uma necessidade fisiológica não estava dando a devida atenção a ela. A vontade de fazer xixi triplicou em milésimos de segundos...

Com uma voz quase sumida levantei meu dedinho com cara de criança que fez arte e disse:

- Eu também saquei o valor diferente da despesa.

Meu chefe muito concentrado em seu grande show, que neste momento tomava proporções de uma tragicomédia, não ouviu a minha confissão. Um colega que estava ao lado dele escutou o que eu disse, e me sinalizou que calasse mostrando-me outro membro da equipe que também havia cometido o mesmo "grande erro".

Quando vi que o colega mais conceituado também havia "errado" fiquei tranquila, não seríamos demitidos por isso, a menos que resolvessem demitir um dos melhores representantes de nossa equipe.

A vontade de fazer xixi alcançou seu ápice e numa reação súbita levantei a voz e pedi licença para sair. Estava com o rosto completamente ruborizado.

Rapidamente dirigi-me ao toalete onde pude resolver o meu grande problema do momento e, infelizmente, tive que voltar para a sala de reuniões.

A tensão da bronca, a descoberta da falha e a vontade de fazer xixi foram tanta para mim, que ao retornar para a sala de reunião já estava com vontade de fazer xixi de novo e tudo recomeçou.

Nunca tente entender a vontade de fazer xixi de uma mulher, pois não existe nada menos racional.

Depois deste "terrível" episódio, busquei rememorar uma reunião anterior onde foi apresentada a nova metodologia de saque das despesas e foi entregue os cartões individuais. Eu e meus colegas chegamos à conclusão que nosso chefe não havia nos orientado sobre o rigorismo de sacar o valor exato, pois a metade da equipe não fez o procedimento correto.

O que houve foi uma falha de comunicação e o erro havia sido de nosso amável chefe. Mas, quem disse que chefe erra? Ainda mais quando está brabo...

Depois de alguns dias, estava em minha casa no Rio Grande do Sul, tranquila. Deveria ligar para o chefe e repassar o relatório das atividades da semana, pois tinha contato pessoalmente com ele apenas alguns dias do mês, e foi o que fiz. Logo que ele atendeu ao telefone percebi que sua voz estava um terror, pensei que ele estivesse  gripado, doente e com toda a ingenuidade lhe perguntei sobre isto. A voz diferente era de fúria, pois descobrira que eu também havia errado e não havia dito a ele, pois ele não escutou quando falei, e então levei minha bronca particular.

Ao desligar o telefone estava perplexa, pois aquele assunto ainda continuava repercutindo, então chorei um pouco (ainda bem que mulher pode chorar) para aliviar a tensão e fui fazer xixi...

Infelizmente esta é uma das formas que muitos chefes utilizam para "motivar" suas equipes.

Marcia Oliveira Ebersol
Enviado por Marcia Oliveira Ebersol em 07/03/2007
Reeditado em 12/10/2011
Código do texto: T404855

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Sobre a autora
Marcia Oliveira Ebersol
Pelotas - Rio Grande do Sul - Brasil, 48 anos
70 textos (5507 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 13/12/19 11:14)
Marcia Oliveira Ebersol