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A andarilha e o velório.

A defunta azul pela rigidez da morte, entrava naquela cor arroxeada, própria dos defuntos, o caixão colocado no meio da sala com quatro velas, que velavam pelo sossego da pobre coitada que, rodeada de pessoas se esticavam dando uma ultima olhadinha e saiam apressados.
O murmúrio das vozes, misturado aos lamentos de poucos, dava voltas pelo ar pairava em cima do caixão e corria porta afora ganhando o céu.
Garoava e fazia frio, cadeiras de plástico encostadas, nas paredes dos dois lados da sala, ocupados pelos mais velhos que se encolhiam de frio, flores, velas, e uma fruteira com frutas variadas, incenso e uma faixa roxa com uma enorme cruz em dourado desenhada em relevo eram os únicos enfeites do local, algumas coroas também com faixas de pesar estavam por ali.
O dia passou devagar, a família muito conhecida, ( eram descendentes de japoneses ) tiveram muitos visitantes que davam os pêsames, acendiam  incenso e faziam uma oração silenciosa.
A noite chegou de mansinho, o frio mais forte, o local foi esvaziando, até ficar somente umas oito pessoas da família, passariam a noite ali com a defunta.
Cansados e esfomeados, alguns fumando como uma chaminé sentaram-se do mesmo lado da sala, para aproveitar melhor o calor, e olhar a praça em frente, ficando apenas uma cadeira vazia onde colocaram as bolsas.
O movimento da cidade cessara quase por completo, apenas poucos carros transitavam, o silencio da sala era desanimador, alguns dormitavam encolhidos, apenas o barulho de chiclete sendo mascado por uma jovem era ouvido.
Passado mais algumas horas, ela chegou, a andarilha com apenas uma blusa de frio fininha e uma eterna calça comprida rosa, chinelos havaianas nos pés imundos, uma boneca que trazia agarrada ao peito, e algumas sacolinhas de plástico pendurada no braço.
Ninguém sabia de onde vinha à coitada, apenas fazia parte da cidade, tanto ela como a boneca.
Todos se olharam desconfiados, ela chegou como se fosse da família, alias todos na cidade a conheciam, algumas mães ameaçavam chama-la quando as crianças passavam dos limites.
Nome não tinha, era só uma maluca que a cidade acolhera também pelo que se sabe nunca fez mal a ninguém, chegou  coçando-se toda, braços, pernas, nádegas descarada mente, os seios e principalmente  os cabelos, enquanto soltava resmungos que ninguém entendia.
Agarrada a boneca chegou junto ao caixão e num lamento triste se jogou em cima da morta, abraçando a madeira que brilhava, todos de olhos arregalados, sem saber o que fazer, as mulheres cutucavam os homens para que tomassem uma atitude, onde já se viu aquilo acontecer, mas eles simplesmente ignoraram a velha, talvez fosse embora logo.
Mas os gritos da infeliz aumentaram de volume, colocando a boneca ao lado da defunta e com as mãos imundas segurou o rosto da pobre infeliz, e nariz com nariz, derramava grossa, lagrimas que lambuzavam o rosto da morta e no anseio de mostrar a sua dor dava pancadas no caixão como em transe, até que uma hora sua mão escorregou e deu uma sonora bofetada naquela senhora já tão judiada pela morte.
A bofetada pegou todos de surpresa, principalmente a maluca que, assustada pela própria violência, pedia desculpas à morta, agarrou a boneca, cujo nome era Jacinta, e pedia a boneca para explicar que foi sem querer o tapa.
Jacinta coitada impassível no seu estado plástico era balançada no ar, enquanto a doida implorava desculpas à defunta, como se fossem velhas amigas.
Reparou então nas frutas, pegou uma maça,  porém sem dentes, não tinha como morde-la, começou a bater a maça na alça do caixão, ate que a fruta se despedaçou, e chupando os pedaços cuspia fruta e saliva para todos os lados.
Ficou por ali uma boa hora, numa conversa entre a boneca a defunta e a andante, os parentes que eram poucos, assustados pelas atitudes e pelo cheiro da mulher faziam de conta que ela nem existia.
De vez em quando, olhava pra fulano, resmungava, fazia gestos e gritava o coitado atônito e pálido, simplesmente olhava o chão, querendo que ele se abrisse.
Cansada daquela luta desigual resolveu sentar, jogou todas as bolsas no chão e sentou-se se encostando-se à pessoa mais próxima, enviando um fedor insuportável, que entrava pelo nariz e ia direto a estomago, dando ânsias de vomito em todos, aos poucos se bandearam para o outro lado da sala.
A maluca estava carente e queria companhia, trocar algumas idéias começou de novo a coçar os cabelos com tanta violência, que automaticamente todos se coçaram também.
Enfim sem poder suportar mais um pouco, resolveram sair, agruparam-se na praça, deixando a doida sozinha.
Da praça tinham uma, certa visão do necrotério, sentados embaixo de uma arvore  pra fugir do relento olhando, ansiosos a porta na esperança que a maluca saísse, a danada encostou as portas deixando apenas um vão aberto.
Demorou e dois homens aventuraram-se e, sem fazer barulho espiaram pelo vão, assustados chamaram os outros e entraram na sala, a doida debaixo do caixão dormia agarrada a Jacinta, enrolada na faixa roxa que enfeitava a parede, ali ficou o resto da noite, pois ninguém teve coragem de acordá-la.
De manha o falatório acordou a andarilha que olhou em volta, rodeada por pessoas estranhas, levantou-se esticou os braços espreguiçando-se e, abrindo a bocarra murcha e fétida, o cheiro afastou metade das pessoas, a outra metade saiu correndo porta afora rapidinho.
A andarilha esticou-se mais um pouco, grudou a boneca embaixo do braço, passou as mãos sujas no rosto da falecida, ajeitou os cabelos da mulher, e colocou Jacinta para dar um beijo de adeus na morta com uma certa violência.
Passou a vista pela multidão, deu uma mexida nos emaranhados dos cabelos e saiu falando com Jacinta, como se nada tivesse acontecido, o povão ficou observando a figura se distanciando com gesto, risadas e resmungos numa conversa só delas, e somente Deus sabia qual seria o assunto.
Luzia Rastelli
Enviado por Luzia Rastelli em 08/03/2007
Código do texto: T406080

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Sobre a autora
Luzia Rastelli
Mogi Guaçu - São Paulo - Brasil, 60 anos
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