Crônica publicada no jornal “O Norte”, Montes Claros-MG, dia 14 de janeiro de 2011.

 
Gramática histórica


 
A vida universitária reserva aventuras esperadas e também não pensadas. Era preciso pagar as xérox, comprar livros, investir na sua carreira de futuro educador. Não basta ser um professor, é preciso realmente professar algo, ter uma atitude realmente professoral, seguir princípios, acreditar. Educar é muito mais que ensinar conteúdos, é formar conteúdos em um ser. Para suprir suas necessidades, enveredou-se para aulas particulares. Não era um graduado ainda, mas já se sentia apto para exercer a docência. Para dar mais comodidade aos seus alunos, lecionava em domicílio.

O rapaz era um pouco estranho. Iria tentar um concurso e por isso procurou os serviços do professor iniciante. Não se dava muito bem com as palavras, as orações, sobretudo, as subordinadas não lhe entravam na cabeça. Na graduação, o professor estudava parataxe e hipotaxe. Os conceitos e nomenclaturas da graduação nem sempre são os mesmos que devem ser aplicados na sala de aula. Mas a discrepância entre o que é ensinado no ensino superior para a formação de professores de ensino médio é matéria para outra crônica. Voltando ao rapaz que tinha um hábito curioso: só recebia o professor em sua casa com um short branco, quase transparente, e uma camisa muito bem regata.

O professor não se preocupava com a indumentária do seu aluno, o que o preocupava eram as ações esquisitas que ele tinha. Às vezes, interrompia uma explicação sobre metaplasmos – deveria sentir espasmos – para interpelar o professor com perguntas íntimas. Queria saber se o professor tinha namorada, se já tinha feito alguma loucura de amor; quis saber até como foi a primeira vez. O professor respondia sem responder e repelindo o aluno, chamando-lhe a atenção para o aprendizado. Afinal, não era preciso saber a cor da cueca – chegou a perguntar isso – do professor para passar num concurso.

É caso de desistência, pois as perguntas estavam se tornando cada vez mais particulares. Tão sérias e pareciam tão curiosas que as respostas sentiam vergonha. E se foram passando as aulas. O professor precisa daquele dinheiro, aliás, precisava de mais. Contudo, sua freguesia não era das maiores. Havia muita concorrência na praça. Depois que seus colegas souberam que ele se aventurara nas aulas particulares, muitos também começaram a fazer o mesmo.

Um dia, numa aula de silepse, o aluno chega com um artefato na mão. Tratava-se de uma gramática muito antiga que pertencera a sua avó. Perguntou ao professor se poderia estudar por ela para fazer a prova e se aperfeiçoar na língua. O mestre promissor ficou extasiado quando viu a gramática, tão rara, tão preciosa, tão genuína e única, que as únicas palavras que vieram a sua boca foram: “quero comprá-la!”. Não quis nem saber se estava a venda ou não. Já foi logo argumentando que era uma gramática para terceiro grau, para professores, pesquisadores da língua, não serviria para ele estudar, trazia muitos conceitos não aplicáveis à língua corrente e blá, blá, blá.

O aluno notou o interesse do professor. Finalmente ele conseguiu atenção. Agora o professor era só dele. Afinal ele era o dono do tesouro, o possuidor da gramática, sentia-se um deus. Começou a contar a história da gramática. Mas o professor se apressara em tentar convencê-lo a vendê-la: “coloque um preço que eu pago!”. O preço, qual seria o preço de uma gramática velha, com arcaísmos e cheirando a celulose? O garoto não saberia mensurar, mas sabia o preço que pediria. Virou-se para o professor e apontou o pequeno quarto. Vale ressaltar que estavam sozinhos na casa.

O professor iniciante já estava com o diploma na mão. Deixara aquela vida sofrida de professor particular e começara a lecionar numa boa escola. Foi nessa oportunidade que o conheci e nos tornamos amigos. Contou-me a história da gramática, interrompendo-a justamente na parte da negociação, quando o aluno apontou o quarto. Estávamos esperando o ônibus e a sua condução tinha acabado de parar no ponto. Disse que terminaria a história depois. Eu fiquei, logicamente, muito curioso, sentado no banco pensando o que poderia ter acontecido. A raridade da gramática, seu preço e o dedo apontado para o quarto. Será que valeria sacrifícios tão grandes? Será que valeria tão elevada quantia?

Não contive a curiosidade e fui até a sua casa. Ele não estava como eu previ. Disse a sua mãe que eu precisava consultar um livro em sua biblioteca. Como éramos amigos e conhecido de sua mãe, entrei. Na estante, muitas gramáticas e livros de linguística. Eu procurava algo bem antigo. Não vi nada. Não sei se fiquei decepcionado ou aliviado. Quando estava indo embora, não sei por que entrei rapidamente no quarto dele e, em cima da cama, um livro de folhas amarelas, bem antigo e na capa: Gramática Histórica.