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Tecendo o amanhã

Rosa Pena




"Tecendo a Manhã
João Cabral de Melo Neto

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro... "



A porta do elevador já estava fechando quando a morena chegou correndo. A loura segurou a porta, mas nem ouviu um banal agradecimento, a outra apenas apertou nervosamente o décimo andar, que já estava com o botão apertado há muito por ela mesma!
As pessoas foram descendo nos andares anteriores e sobraram as duas quietas lá. No décimo, assim que abriu a porta, as duas avançaram para a saída. Esbarram-se, mas nem pediram desculpas. Ignoraram-se sumariamente.

Quase correndo pelo primeiro lugar na maratona da babaquice, foram tocar a campainha da clínica. A auxiliar abriu e novamente entraram apertadas entre si. A enfermeira avisou que o doutor estava atendendo um caso complicado e que podia demorar. Depois perguntou:
 Quem chegou primeiro?
- Eu!
- Eu!

A atendente foi chamada para ajudar o doutor e passou a reinar um silêncio profundo entre as duas. A loura pegou um jornal, a morena uma revista. Ambas disfarçadamente abriram seus envelopes de exames, fingindo que estavam lendo a vida alheia, como a cor da calcinha de alguma primeira-dama que muda o destino do mundo.

Não se olhavam de forma alguma, até que de repente tocou o celular da loura. Ela atendeu e falou baixinho:
- Não filha, ainda não sei se vou voltar contente, mas independentemente agora estou, por saber do seu carinho.
Ouviu um soluço baixo da morena e finalmente olhou para ela. Perguntou sem reservas:
- Sua doença é grave?
- Minha decisão que é. E a sua?
- Um caroço no meu seio. Apareceu na mamografia.
- Ouvi você falar com sua filha. Se amamentou, suas chances de câncer diminuem muito.
- Mas não eliminam. Você tem filhos?
- Não.
- Não quis ou não pode?
- Quando tinha vinte e poucos anos eu quis, mas meu marido não. Nem insisti na época. Passou o tempo e agora estou com quase quarenta e sem marido.
- Você ainda quer?
- Eu estou grávida, mas vou tirar! Não tenho garra pra segurar essa, perder minha independência, criar sozinha!
- Falta grana, saúde, vontade?
- Não. Tenho casa própria e minha mãe mora comigo, cuido dela. O que me falta mesmo é o instinto.
- Sua herdeira de afeto é sua mamãe. Quem vai herdar o seu?
- Ah... Sei lá!
- Sabe, tenho uma irmã que fez sessenta anos e não quis filhos aos trinta anos. Escolheu ser diretora de uma empresa. Tínhamos mãe, ela dedicou seu afeto a mamãe e seu aprendizado à firma. Mamãe e a firma faliram.
- Você é contra o aborto?
- Sou a favor do livre arbítrio, mas quando ele é exercido na certeza.
- E sua irmã?
- Anda sozinha pela casa, ligando a cada meia hora para os sobrinhos em busca de dar amor, muito mais até do que receber.
- Você está me censurando?
- Não. Estou só conversando, sem pensar em pecados, aliás, acho que pecado é invenção do diabo para sobreviver no seu latifúndio improdutivo.
- Acha então que vou me arrepender?
- Quem está se questionando é você.
- Ontem fiz esteira durante duas horas. Será que faz mal?
- Será, pergunto eu, que falta o que disse antes?
A porta do consultório abriu e a enfermeira tornou a perguntar quem chegou primeiro.
- Ela!
- Ela!
Olharam-se sorrindo e falaram em eco:
- Viemos juntas. Podemos entrar?
O doutor, sem entender a polêmica, chegou na porta e perguntou se eram casos de vida ou morte. A morena respondeu:
- Ambos de vida!

A loura, naquele momento, teve certeza que o seu caroço era benigno, como o designo que a colocou naquele dia frente a frente com o sorriso do amanhã!


Rosa Pena
Enviado por Rosa Pena em 15/03/2007
Reeditado em 04/09/2012
Código do texto: T413723
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Rosa Pena
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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