Mãe Gentil

Mãe Gentil




Estou vendo uma enorme vírgula na afirmação Orgulho de Ser Brasileiro, e, para mim, essa vírgula ficou cristalina e sólida na banca do Nil, dias atrás, quando nós, paisanos descartáveis, falávamos sobre o assassinato do menino boliviano de 5 anos. O próprio Nil comentou: não, acho que isso aí foi coisa interna, deles mesmos... Pouco tempo depois mostraram as imagens dos assassinos. De doer. Doeu em todo mundo.
E o que não estava na superfície quando dessa conversa, posteriormente ficou claro: infelizmente os assassinos eram brasileiros.

Ontem, Dia do Amigo, recebi um torpedo (ainda não identifiquei o autor), com o seguinte texto, extenso, que reproduzo aqui na íntegra para que você possa ler e, ao fazê-lo, faça o favor de marcar o ritmo com um dos pés: “Renato Torquato tirou um retrato de um jovem mulato rasgando o contrato de seu celibato por causa de um fato ocorrido no mato, ferindo seu olfato que desde o orfanato segundo relato usava com tato e muito recato, mantendo contato com jeito e bom trato com o cara cordato que tinha no prato guisado de pato. Não adianta o Januário reclamar do adversário e dizer ao salafrário que não vai mudar o horário de seu próprio aniversário pois se ele eh temporário, o seu tempo, ao contrário, segue o velho itinerário, aguardando que o Romário saia logo do armário e consulte o dicionário sobre seu vocabulário, quase todo originário do aspecto lendário de seu próprio imaginário... Algo muito extraordinário nesta Era de Aquário, mesmo para um velho otário sem nenhum saldo bancário”. Bom, seja lá quem for, denota senso de humor e possui o sublime vício da intimidade com a palavra. Ou talvez tenha a hipocrisia pelo avesso – momento em que a virtude se faz humilde para não magoar o vício.

Nem de longe ouso afirmar qualquer coisa. Tio Ronnie diz que a amizade é a sublimação do amor. Taí uma coisa que eu endosso.

Francisco, o Papa, terá cerca de 30 mil seguranças, e pede aos fiéis que orem por ele. Seu pedido é justo e Deus nos livre dessa mácula – a de acontecer uma tragédia com Francisco em nosso solo.

Bem, os números não mentem, (ou falam por si) e basta você dar uma volta em quase qualquer lugar, em quase qualquer hora, para ouvir sobre o medo das pessoas de sair à rua para comer uma pizza ou um burguer autêntico. É como se tivesse uma coisa solta aí fora, uma coisa incontrolável, prodigalizando baixas. E não são alienígenas de outras plagas que estão animando essa coisa. São daqui mesmo.

Hoje vi um documentário a respeito de Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, sobre a fatia de sua obra nos 60 em território americano. Por conta de assuntos outros não foi possível assistir até o fim. Mas, me veio um jogo de palavras na cabeça: Tom, feito de uma só peça, gênio musical antes de nascer, durante a vida, depois de morto. Deu um toque especialíssimo nessa idéia sem igual (e um tanto assustadora ultimamente), chamada Brasil.

Nem em mil anos terminaria esse texto, tamanha miscelânia de sentimentos e raciocínios processados segundo a segundo acerca do nosso orbe verde amarelo.

Há um momento em que Frank Sinatra, acompanhado pelo maestro, fala com profundo respeito sobre a invenção daquela novidade chamada Bossa Nova. Algo que, pensando a partir do quadro inteiro, só poderia ter sido criado aqui.

Não acho que ser brasileiro seja uma questão de orgulho, mas antes de privilégio. Todavia, por hora, me parece que tal privilégio anda seriamente ameaçado.


(Imagem: Georgi Tandashvili)
Bernard Gontier
Enviado por Bernard Gontier em 21/07/2013
Reeditado em 11/05/2021
Código do texto: T4397507
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