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ASSEMBLEIA DE DEFUNTOS (EC II)

N.Autor - Sobre o mesmo tema leiam também O CORDEL
"BENTO NO CEMITÉRIO"
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ATA DA ASSEMBLEIA EXTRAORDINÁRIA DO CONDOMÍNIO
PARQUE DO SILENCIO ETERNO

Às vinte e três horas dos  treze dias do mês de agosto do ano de dois mil e quinze, reuniram-se em assembléia geral extraordinária, no espaço inferior invisível do Condomínio, os condôminos, alguns em primeira convocação, outros após dias em UTIs,  mas todos com derradeira moradia nas quitinetes do Condomínio Parque do Silêncio Eterno, situado na Avenida da Saudade, esquina com a Travessa das Almas, nesta cidade de Pés Juntos, para discutirem e deliberarem a pauta única da noite: I – Análise dos problemas decorrentes da invasão diária por seres vivos, de diversos gêneros, espécies e raças com a prática de atos ofensivos por parte destes e apresentação de propostas para solucionar definitivamente os problemas. Abertos os trabalhos, visto imediatamente concluído quanto a impossibilidade de todos falarem, foram selecionados alguns problemas comuns. O senhor  João, morador no lote 2005K, manifestou sua insatisfação quanto ao desaparecimento de diversos objetos de bronze, como vasos e placas de endereço e identificação. Foi imediatamente ovacionado por quase todos os demais. O senhor Paulo do lote 1978V reclamou quanto aos gatos que pisam sobre seu leito. Muitos torceram o nariz para a reclamação, com alguns chegando a dizer-lhe para que fizesse uma laje sobre a terra. Essa manifestação causou a primeira discussão. Dona Dulce do 1992H respondeu que todos tinham direito de um repouso digno, tivessem ou não laje sobre sua morada. Acrescentou bastar ter sido, já durante muitos anos, uma sem teto. Foi aplaudidíssima pelo moradores da região periférica do condomínio. O senhor Galvão, apartamento 1822C, manifestou-se que muito pior eram as pombas que emporcalhavam o granito de sua casa. Foi apoiado pelo morador do apto 1903C, senhor Leão, que apontando o dedo para a vetusta dona Paulina, 1942Y e para o senhor Assis, do 1226J, argumentou incisivo: “ A culpa das pombas é de gente como nossos vizinhos acostumados a jogar milho para elas, durante toda a outra vida. Elas vieram junto, quando da mudança para o condomínio ”. Formou-se um alvoroço, somente apaziguado pela senhora Tereza, moradora do 1997P, que com sua tranqüilidade costumeira disse: “Muita calma nesta hora! Estamos aqui para uma união eterna, não para ficarmos purgando erros passados”. Os ânimos se aquietaram. Dona Tereza, entretanto, manifestou sua tristeza quanto ao constante furto das flores trazidas por seus familiares, em visitas quando de seu aniversário e datas festivas. Senhora Rita, moradora com seu companheiro Calixto no conjugado 1457/1458D, reforçou que tal fato já fora motivo de reclamações de Calixto quanto as que eram enviadas por ela, antes de virem morar juntos novamente, após breve separação. Dona Luzia, do 304M, manifestou-se quase não estar mais conseguindo ler, pois já perdera a conta de quantas vezes levaram as velas que iluminavam a entrada de seu humilde lar. O senhor Vitor do 199H, reclamou do barulho de visitas na vizinhança, afirmando ser incômodo e absolutamente inútil ficarem rezando e cantando em voz alta monocórdicas e repetitivas ladainhas. Além de incomodar o barulho, lembrou não professasse a mesma religião. Dona Cecilia a vizinha do 180F, sentindo-se ofendida, enfureceu-se. Afirmou que era uma das moradoras mais antigas e sugeriu que se estivesse incomodado que se mudasse, recebendo como resposta que até gostaria, mas não dependia dele tal atitude. A senhora Apolônia, do 249D lembrou do furto de sua dentadura, já relatada em assembléia anterior. Devido ao adiantado da hora, a síndica, dona Mary (1851X) pediu ao presidente da mesa, senhor Frank (1818Q)  que passassem a deliberar sobre quais atitudes tomar diante dos problemas apresentados. Várias propostas surgiram, como identificar e fazer visitas noturnas aos causadores dos transtornos ou manter uma vigilância solidária surgindo repentinamente à porta de sua quitinete, quando vissem alguém importunando ou furtando algo. Após algum debate, foi aceita a proposta do Senhor A. Helsing, do 1897R. Assim, antes de atitudes individualizadas, fariam, na próxima lua cheia, uma manifestação coletiva de alerta. Uma passeata saindo do condomínio, passando por diversos pontos da cidade, vestindo roupas brancas, assobiando e assoprando o mais forte que pudessem. Quem tivesse, deveria levar também correntes. Decidiram ainda manter a assembléia e os assuntos em pauta permanente. Sem mais a discutir, retornaram pacificamente a seus leitos. Secretariei e lavrei esta ata, subscrevendo-a, Gyselle do 4001.

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Este texto faz parte do Exercício Criativo - A Revolta dos Defuntos
Saiba mais, conheça os outros textos:
http://encantodasletras.50webs.com/arevoltadosdefuntos.htm
Pedro Galuchi
Enviado por Pedro Galuchi em 05/08/2013
Reeditado em 05/08/2013
Código do texto: T4420097
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Sobre o autor
Pedro Galuchi
São Paulo - São Paulo - Brasil
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