Feliz dia novo
  

É impossível não guardar saudade. É incontrolável a recordação que fica escondida em um lugar bem visível na memória. Assim, tudo de significativo, alegre ou triste, será carregado para o próximo ano, também para o próximo e para o próximo... Porém, é mais fácil lembrar-se do caixão que do berçário...

Feliz, muito feliz por findar um ano marcadamente anual.

Bom é sentar à mesa de um bar ou ficar em um local mais reservado, familiar, e experimentar uma virada anual “abstrata” com fogos, refrigerantes, champanhes, vinhos, cervejas, perus, pernis, trajes brancos. Curtir, dançar e, como queiram alguns, embriagar. Esse é o sentido do Ano Novo para a maioria. Esquecer tudo que de ruim aconteceu e desejar melhoras mútuas para o ano vindouro. Uma esperança lúdica de que uma alteração numérica no calendário poderá trazer dias melhores. Esperam-se 365 dias (ou 366) para crer que o divino ou o humano, a sanidade ou a loucura se transformarão em bens de consumo corpóreos ou espirituais. Pobre mentalidade humana que se esquece de que sempre há um dia novo logo depois das 24 horas. Comemora-se o extermínio do ano com fogos, mas se sepulta o dia com a cabeça no travesseiro.

Um número a mais na indicação anual não alterará o rumo dos ventos. O Feliz Ano Novo pode não ser tão novo assim. Ele já pode surgir tão velho quanto os problemas que assolam a humanidade desde a criação. Mas a insistência na renovação cria uma aura de magia e um sentimento espiritual de travessia tão intenso que é possível acreditar em dias melhores. Se não houver uma crença nisso, lastimável será a vida. E já disse o Rosa: “viver é muito perigoso!”

Espera-se que, no próximo ano, crianças não sejam abandonadas; as transformações climáticas sejam mais dóceis; as manifestações políticas sejam menos falsas; a guerra civil se torne servil; as bolsas em queda sejam aparadas por mãos genuínas; que as manifestações populares mudem a vida do povo, a começar pela dos governantes; os sequestros passionais sejam apenas fetiches de casais em lua de mel; os amores perdidos sejam reconquistados ou guardados para sempre; os vírus não sejam tão rebeldes; o espirro gripal não seja assustador... e que o desejo de destruição do outro seja temido como um espelho.

Ainda que todos os desejos bons sejam reverberados nestes tempos de fim de ano, que são acalorados com o nascimento do salvador, é preciso abrir os olhos todos os dias e encarar a realidade horrível ou bela, que seja a existente. É preciso usar o branco todos os dias, uma permissão mais que necessária como nos incentiva Thiago de Melo no artigo X de seu poema Os estatutos do homem: “fica permitido a qualquer pessoa, qualquer hora da vida, o uso do traje branco”.

Bom é acordar todos os dias e encarar de peito aberto as dores e alegrias cotidianas e, no final deste mesmo dia, abrir um champanhe, agradecer ao Pai por tudo e pedir, singelamente, que o próximo dia seja melhor. Que a fartura de todos os Anos Novos se converta em Dias Novos. E que a paz e a prosperidade desejada no final do velho ano seja o esforço de viver humanamente todos os dias deste enigma maravilhoso da vida.