A garrafa muda que sabe escrever – Preto e branco

Era tudo sem vida nessa cidade. Era tudo preto e branco. Portas, paredes, árvores, gatos, pessoas…tudo. Mas se chacoalhávamos a cabeça de uma lado ao outro, deleitávamos numa mistura dos deuses. Com o movimento nossos olhos encontravam um cinza tão belo que não queríamos mais parar de sacudir nossas cabeças. Ficávamos tomados. Infelizmente, andar tonto pelas ruas não era uma opção muito esperta; o número de acidentes e mortes aumentavam desmedidamente. Por isso, decidimos fazer nossa meninice apenas aos finais de semana, quando a cidade parava por completo e, alguns tantos, não todos, buscávamos algo menos monótono para contemplarmos: o belo cinza fugaz.

E foi num desses finais de semana, há muito, quando nem esperávamos algo diferente além do cinza, que o surpreendente nos aconteceu. Uma borboleta surgiu. Uma bela e colorida borboleta, por sinal.

A pequena apareceu e sobrevoou todos os espaços possíveis. Ficamos pasmos com tantas cores vivas. E não foi para menos. Azul, verde, vermelho, amarelo…Não poderia existir uma espécie daquelas, poderia? Se sim, nunca havíamos sequer sonhado com tamanha ousadia da natureza. Nossas borboletas eram pretas ou brancas ou, no máximo, as duas cores juntas; jamais coloridas.

Quando já ao entardecer, a nossa visitante ilustre, talvez cansada de todo seu passeio, pousou numa árvore branca do parque central. Logo, toda a cidade se reuniu num circulo de admiração e euforia. Foi especulações daqui, afirmações de lá, num geral, olhos sempre no alvo.

E eu, leitor, confesso que conseguiria escrever um final melhor se eu não tivesse me comprometido a ser fiel ao fato que presenciei: a maldade de um ser. Poderia desviar-me da desgraça e tomar um rumo prazeroso, continuando no mesmo caminho de paz que o início indicara. Poderia dizer que a borboleta colorida encontrara um parceiro e depois do amor dara à luz filhos semicoloridos, e que os filhos destes últimos já nasceram completamente sarapintados. Poderia escrever muitas boas coisas.

Entretanto, tenho que dizer que uma alma desvairada, coberta de maldade e distinta do bem, avançou sorrateiramente por entre a multidão e num golpe certeiro atingiu o inseto com um enorme chinelo. E o que ele disse? “Parem com essa besteira. Já me cansam os olhos.” Simplesmente isso.

Hoje, escrevo e me faço as mesmas perguntas que naquele episódio me fiz: o que há com esse ser que chamamos de humano? Por que temos que viver no preto e branco, na mesmice que nos limita a alma? Por que temos que balançar a cabeça toda vez que queremos algo diferente? Infelizmente, ainda não sei tais respostas. O que sei é que nessa cidade tudo continua sem vida. Tudo continua preto e branco.

Kaleo
Enviado por Hugo LC em 21/01/2014
Reeditado em 24/03/2014
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