Eu Não Odeio Futebol

 
Antigamente o Brasil ganhava jogando bonito. Depois veio a fase do perder jogando bonito. Em seguida passamos a ganhar jogando feio. Hoje estamos jogando feio e perdendo. Lucêmio Lopes da Anunciação

Eu não odeio futebol. Acredite! Conheço bem as regras do jogo, inclusive a do impedimento. Já até tentei jogar, mas achei tudo muito violento. Quase quebrei a canela de uma e o joelho de outra. Desisti, quando o treinador sugeriu que eu poderia me dar melhor na luta livre.
Tendo cinco irmãos homens, é natural que eu consiga ver mais graça no movimento das chuteiras atrás da bola, do que nas pernas musculosas que as conduzem. Ok! Também olho as pernas musculosas, claro! Mas mesmo cambitos ou pernas tortas à Garrincha me seduzem, quando geniais a caminho do gol.
Vai daí, que estranhei meu desinteresse nesta Copa. Deve ser esse clima de revolta, de investimentos em obras padrão FIFA, num Brasil onde áreas vitais como saúde, educação e segurança estão falidas. Pode ser ainda falta de confiança no elenco montado por Felipão, a sensação de que tudo depende de um Neymar que ainda não me convenceu.
Neste desânimo e com o sono atrasado, resolvi não ver o jogo de estreia do Brasil e aproveitar a tarde de folga para tirar uma soneca. Maridão, gentil, abaixou bem o volume da TV e ficou quietinho ao meu lado. Autocontrole total! Até que o jogo começou e todo o autocontrole dele derramou-se pelo gramado, levando junto meu sossego. A cada roubada de bola ou pseudoameaça de ataque, ele resmungava se agitava todo. Pedi que fosse ver o jogo no outro quarto.
E ele, todo meiguinho:
- Ah! Não... Tá frio! Deixa eu ficar aqui pertinho... Prometo que vou me comportar.
E, realmente, a paz se fez. Embalada pelo som baixinho da TV, finalmente, dormi. Aquele soninho gostoso, que não chega a ser uma dormida, só um relaxamento, um abandono da consciência. Foi quando o Marcelo fez o primeiro gol da copa. Contra. E ele gritou “Nãããããããooo!”, me arrancando do Nirvana direto ao Samsara.
Disse-lhe uns dois palavrões em Hebraico, que foi a língua mais adequada para xingá-lo pelo susto naquele momento. Certo! Eu também não sabia que sabia xingar em Hebraico. Mas xinguei. Peguei coberta e travesseiro e fui eu, dormir no sofá do outro quarto.
É verdade. Eu não odeio futebol. Mas, que devia, devia.

 
Texto publicado no jornal Alô Brasília de 20/06/2014, reeditado do texto homônimo publicado neste Recanto das Letras em 06/03/2009.