Peregrinos

Peregrinos





Alice, esbelta, meia idade, confessa que sua vida mudou depois de ler "O ócio criativo". "Ah", suspirou Rita, uma baixinha de óculos, "o gênio de Masi, nos ensinou que a labuta no futuro será mesclada com tempo livre, estudo, lazer...". Ambas mastigam. "Que o futuro seja agora!". E brindam, alegres. A mesa vai daqui até lá. Alemães, italianos, ingleses, costarriquenhos, búlgaros, israelenses. Giuseppe, que colocou velas coloridas em vários pontos do ambiente, conta que tem sido peregrino desde o tempo em que não se tomava banho. Mario, um português
troncudo, derruba um pouco de vinho na mesa coberta com uma toalha xadrez e exclama: como é isso?! Sereno, Giuseppe conta que na Europa Medieval, as pessoas tomavam banho apenas uma vez por ano, em geral no mês de maio. Com os seres mais limpos, maio plasmou-se no mês ideal para os casamentos. Nasceu assim o mês das noivas. O buquê vem desde esses idos, só que então era usado para ludibriar os odores...."Acho que sempre fui um peregrino", filosofa consigo mesmo. Daí vira para mim e indaga: e você? Digo solenemente que peregrino pelos em ovos. Eles riem. Lídia, uma moça de Caracas, mais uma tal Rafaela, nascida num vilarejo espanhol denominado Roncesvalles, cantarolam "De que vale ganhar o mundo e perder a própria vida?". Lá fora está escuro. Uma senhora de avental traz legumes refogados. Peregrinos vindos da Coréia e da Polônia sentam-se perto dos nigerianos, que por sua vez querem saber quanto tempo vamos ficar aqui. A esbelta Alice retruca: desfrutem a pausa, o tempo sem resposta, a negativa alheia. Desfrutem permanecer onde estão. Não há nada de errado em alguém ficar parado por um tempo. "Mas somos peregrinos!", exclamam, exaltados. E virando-se para mim: e você? Digo gentilmente que peregrino fios soltos em rádios velhos. Noemi, uma peregrina mexicana, diz saber com absoluta certeza que teve várias vidas como ajudante, enfermeira, como madre, freira, como irmã, como colega, mesmo como esposa, e arremata: "eu apenas estive ali, presente, oferecendo a minha ajuda, colocando as minhas mãos, disponibilizando os meus ouvidos. Oferecendo para o outro, fosse uma criança, um velho, alguém da minha idade, apenas a minha aceitação".
Greg, um dinamarquês soturno que chegara mais cedo para arrumar a mesa disse mansamente "eu escolho a experiência". Ruminei nessa declaração. A mesa vai daqui até lá. Também cheguei mais cedo e os detalhes significativos captados no início agora estão num patamar de pensamento diferente. Impossível afirmar se o dia seguinte será assim.



(Imagem: John Singer Sargent, 1856-1925)
Bernard Gontier
Enviado por Bernard Gontier em 02/07/2014
Reeditado em 04/04/2021
Código do texto: T4867686
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