O Jardineiro Pensador


(Crônica)

Hoje, foi dia de jardinagem; venho adiando a doída, porém, necessária poda. Os pés de hibiscos estavam com os galhos muito abertos, isso, além de prejudicar na produção de flores, parece-me ser chamariz para insetos. Antes de iniciar a poda, preparei-me, material e espiritualmente, para a delicada tarefa. Comprei uma ótima tesoura e pedi a Deus coragem para decepar os galhos das plantas que, durante muito tempo, encheram meus olhos de prazer do belo. Mas, sei por experiência (nasci e fui criado na fazenda) que a poda só faz bem às plantas. Porém, quando sem tem um convívio cotidiano com coisas quaisquer, cria-se certo apago, amor mesmo a essas coisas, ao menos comigo, assim acontece.
Comecei pelos hibiscos vermelhos, passei para os amarelos e continuei (sem amarelar) até o último hibisco, que os tenho vermelhos de pétalas simples e os de pétalas sobrepostas, tenho o rosa de pétalas simples e tenho o amarele dos dois tipos de pétalas. A seguir, fui para minhas azaleias que as tenho vermelha, branca e de três tonalidades de rosa. As orquídeas nunca precisam ser podadas! Conforme os galhos iam caindo, percebi um como que alívio, parece que se abriu passagem para os raios dourados do Sol entrar com mais intensidade no jardim, e seu brilho refletido nas folhagens e nas flores ficou mais vivo. Continuei minha tarefa de poda nas outras plantas, até meus antúrios não escaparam, principalmente o vermelho, que estava muito feio e enrugado. Tenho várias plantas que dão flores lindas, das quais não sei o nome; rosas não as tenho, exceto uma rosa menina vermelha, que não careceu de poda, no momento. Roseiras são exigentes, requerem cuidados especiais; as formigas são suas principais inimigas, depois vêm às lagartas,... Certo, que a recompensa vem através das belíssimas rosas, mas, preferi não tê-las e compensar com outras flores, também, belíssimas.
Conforme eu ia, cuidadosamente, podando minhas amigas que são alegria para meus olhos, para minha alma; eu ia refletindo nas muitas e, quase sempre, doloridíssimas podas que a vida fez-me. As pessoas costumam comparar a necessidade da poda das plantas, à necessidade da poda humana. Sinceramente, eu não concordo muito com esse argumento. Certo que, usá-lo como lenitivo para os momentos de dor em si próprio e no outro é válido e até louvável! Mas, principalmente, com relação à poda no corpo material (a poda física) no mais das vezes, só nos enfraquecem. Refiro-me como poda física às doenças e a grandes tragédias humanas (que também são podas espirituais). Pessoas há que não são tão podadas quanto outras fisicamente, passam a vida gozando de boa saúde; mas, outras, como é o meu caso, sofrem podas constantes (não são reclamações,... por favor, tenham essas minhas palavras como simples reflexão, pois, não questiono a Justiça de Deus); observar, analisar,... são atributos humanos (dádivas divinas) que pessoa alguma pode ignorar ou não usar. É o que faço agora, uma reflexão sobre a poda nas plantas (executada pelo homem) e a “poda” nas pessoas (executada pela vida). Hoje, não fossem as muitas podas que sofri, com certeza, eu seria muito mais robusto e saudável fisicamente.
Agora, a poda espiritual é mais difícil de explicações, de se fazer algum juízo sobre ela. Não por medo de pecar contra Deus, porque, para mim, Deus está acima de toda e qualquer picuinha humana; sou um livre pensar e não entra em questão em minhas reflexões conceitos tais como superstição, pecado etc. Mas, a poda espiritual é mais semelhante à poda das plantas, porque, pensando nas podas espirituais (psicológicas, psíquicas,... escolha o nome de seu gosto) então, pensando nessas podas que sofri, acho que elas contribuíram para minha saúde espiritual, psicológica,... Espero, sinceramente, que não doa nas plantas como doeu e dói em mim as podas espirituais. Foram podas dolorosíssimas, mas, tenho de reconhecer, a maioria delas necessárias, pois, eu cresci e me robusteci espiritualmente. Às vezes, vem juntas a poda do corpo e a espiritual, elas se completam.
Já estou encerrando a tarefa de poda do meu jardim, só resta o pé de alecrim e o de arruda que são, também, meus xodós. Depois é só juntar os galhos e jogá-los no lixo. Precisarei contratar alguém para levar para longe os galhos, são muitos, deu uma montanha! Aí é só varrer o jardim para deixa-lo limpinho, e, como está na época da chuva, penso que não vai demorar a brotar os galhinhos novos e viçosos,... Ficarei aguardando e acompanhando com ansiedade todo o desenvolvimento, todo o processo de restauração que a natureza fará em minhas plantinhas. Só me resta louvar ao Criador pelo processo de renovação que Ele planejou para toda a sua criação.


 
Manoel de Almeida
Enviado por Manoel de Almeida em 27/07/2014
Reeditado em 27/07/2014
Código do texto: T4898410
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