O AMOR E OS AMORES
 
 
"O amor é a paixão que teve a chance de amadurecer e
a paixão é o amor adolescente."
(Nena Medeiros)
 
 
Dia desses, conversava com uns amigos sobre amor. No cerne da discussão, dois deles defendiam a existência de tipos de amor, apresentando diferenças entre o amor materno ou paterno, filial, conjugal, entre parentes, amigos, animais, lugares, profissões, objetos... Objetos, sim, claro! Vai dizer que você não ama aquele seu álbum branco dos Beatles, por exemplo?
Do lado oposto, os outros defendiam a unicidade do amor, com o entendimento de que ele não varia, e sim, todo o conjunto acessório de sentimentos que constituem as relações. Na opinião deles, o que difere o amor carnal do amor materno, é, por exemplo, a existência da atração sexual e da paixão, no primeiro; enquanto no segundo, reinariam a ternura, o zelo, a proteção.
Eu assistia à contenda calada. Da mesma forma que eu acredito que amor não se define, penso que ele não se classifica. Amor, a gente sente. A gente ama e ponto. E, olha que incrível: exceto por raríssimas condições especiais, a gente ama certinho. Seja ao pai, à mãe, aos irmãos, amigos, filhos e, claro, à nossa cara metade; para cada um, oferecemos exatamente o amor que lhe cabe, sem confundir nada. Pra que explicar?
A conversa que já ia acalorada - o que não quer dizer muito, em tempos como estes, de termômetros estourando -, entrou em pauta a diferença entre amor e paixão. Paixão, lembra? Aquela do início do tempo de namoro, aquela vontade louca de estar junto todo o tempo, um incontrolável medo de perder, a insaciável saudade, um indisfarçável tesão...
Aí, a opinião foi unânime. Amor e paixão se complementam e quando ela acaba, ele esfria. Porém, ela também tem o poder de tomar conta da gente de um jeito voraz, nos roubando de nós mesmos, nos obrigando a cometer loucuras e nos anulando em nossa condição pessoal. Daí, talvez nem seja amor. É vaidade, ciúme, carência, e, o que é pior: é falta de amor próprio.
Se bem que... E Narciso? Morreu foi por excesso de amor próprio?
É! Esse negócio de falar de amor é mesmo muito complicado! Deixemos para os filósofos e catedráticos e vendedores de livros de autoajuda.
Nós outros seguimos por aqui, amando e aprendendo a amar.
 
Texto publicado em minha coluna semanal de hoje no jornal Alô Brasília e reeditado do texto homônimo, publicado neste Recanto das Letras em 08/08/2011.