O ÚLTIMO CIGARRO

Não consigo me lembrar o nome da música que o sujeito magro, dedilhando o violão, cantava no palco improvisado de um bar, que eu e meus amigos freqüentávamos. Sei que o apelido dele era Salsicha, um sujeito do corpo alongado e extremamente magro, que cantava MPB enquanto tomávamos nossa sagrada cervejinha de fim do dia. Eu já tinha passado dos vinte anos e não fumava. Para pagar a conta do bar, fazíamos uma vaquinha, cada um colocava na mesa notas amassadas cuja soma sempre era pouca, dava para comprar cinco ou seis garrafas de cerveja. Éramos geralmente seis pessoas e eu era o único não fumante. Assim, me enfezava quando os amigos retiravam daquele dinheirinho suado uma parte relevante para comprar cigarros e de nada adiantavam meus queixumes. Um dia, nesse dessa música que não consigo lembrar qual era, apanhei das mãos de um deles o cigarro recém aceso e o levei à boca. Lembro até a marca: Plaza longo. Traguei com tanta vontade que os pulmões explodiram e tossi pra valer enquanto meus amigos sorriam. Não percebi que o estrago estava feito. A nicotina se espalhou no meu paladar, se misturando ao gosto amargo da cerveja e já na segunda tentativa peguei o jeito de tragar sem desespero e assoprei ao ar a fumaça do cigarro pela primeira vez. Então senti o prazer que imaginei transitório, que um dia qualquer, bem cedo, antes que me dominasse, eu, forte e sereno, abandonaria o vicio. Eu era mesmo um rapaz ingênuo. Em pouco tempo o cigarro se transformou num amigo inseparável, sempre me acompanhando nos momentos bons e difíceis, do tipo que ouvia calado as minhas queixas e dava conselhos silenciosos, assoprados aos ouvidos com a candura da sua fumaça espessa. Quando surgia um problema, imediatamente eu pensava: vou fumar um cigarro, depois vejo isso. E desde então, eu, que não sei rimar, em instantes de contemplação, declamava poesias ao cinzeiro. O tempo foi passando sem que conseguisse criar coragem para abandonar o vício, decisão que fui adiando na medida em que diminuía o uso, até que se tornasse bem pouco, cinco ao dia, fumados à noite diante da televisão. Nessa virada de ano, decidi como primeira meta abandonar o vício do cigarro. No terceiro dia de janeiro, sentei-me no sofá, estiquei o corpo por inteiro, acendi o último cigarro e coloquei no velho toca disco uma música do Queen. Enquanto a voz doce e ao mesmo tempo agressiva de Fred Mercury lançava aos meus ouvidos a melodia de Bohemian Rhapsody, transformada em réquiem de despedida, a fumaça subia aos céus, acenando para mim no seu modo desajeitado em forma de adeus. “Goodbye everybody, i´ve got to go”. Quando terminei, esfreguei o filtro do cigarro no cinzeiro e sem querer formei riscos entre as cinzas que se transformaram em algo parecido com a palavra fim. O que vou fazer com o cinzeiro de agora em diante? Não importa, talvez sirva de peso para segurar a porta da sala. Adeus velho companheiro, sentirei saudades.