Alhoterapia

Há bastante tempo, num dia qualquer que não sei precisar, estava procurando um objeto perdido no guarda roupas, quando lá nas profundezas do armário encontrei um frasco de vidro com um líquido arroxeado no seu interior. Surpreso, e sem entender muito bem do que se tratava, forcei a tampa até abri-la. Mas não por muito tempo, porque a “fragância” que escapou foi forte o suficiente para eu logo aprisionar o líquido pelo resto da eternidade.

Acabei lembrando do que se tratava. Não, não era mandinga, nem simpatia, nem coisa do gênero, que nunca fui dado a essas esquisitices. Era um concentrado de vinagre com alho, que um livro recomendara guardar por longo período antes de consumir.

Sempre fui do tipo que lê tudo o que ousa cruzar o caminho, de placas de carro a bulas de remédio. E eis que um livro chamado “Alhoterapia” teimou cair em minhas mãos. Eu devia ter meus 13 anos de idade, e não havia a menor razão para ler um livro tão bizarro como aquele. Mas naquela idade as coisas toscas me atraíam com um magnetismo irresistível.

Nesse livro, Tadashi Watanabe (se serve de atenuante, é possível que eu tenha ficado impressionado com o nome do autor), descreve as sensacionais propriedades terapêuticas do alho, capaz de curar e prevenir qualquer doença, de rabugice a câncer.

É engraçado como a ciência às vezes parece neurastênica em suas descobertas.

Hoje divulgam as propriedades terapêuticas do café, que com seus antioxidantes e componentes diversos é capaz de combater cálculos biliares, perda de memória e até câncer. Alguns estudos dizem que o consumo de café aumenta em até 10% a longevidade de seus apreciadores.

No dia seguinte, enquanto você toma café, assiste uma reportagem afirmando que a cafeína provoca taquicardia, aumenta a anisedade e pode provocar osteoporose.

Então você chega a conclusão que café faz você viver mais, desde que você não enfarte com taquicardia nem pegue osteoporose por causa do mesmo café.

Tenho um primo que come o que bem quer na hora em que bem entende. O doido se farta de pimenta em pleno café da manhã. A tese dele é que na vida você não tem controle sobre as coisas, e a pessoa mais saudável do mundo pode morrer atropelada ainda jovem num belo domingo de sol. Então o melhor é não passar vontade.

Faz pouco, aliás, faleceu Darrell Winfield, garoto propaganda da Marlboro, a famosa marca de cigarros do caubói. Viveu até os 85 anos, acima da média de seus pares. Talvez vivesse 115 anos se não tivesse fumado, mas jamais saberemos. Outros atores fumantes da mesma marca de cigarros morreram antes, e quase todos de doenças relacionadas ao tabagismo.

Ninguém em sã consciência hoje em dia poderia negar os efeitos nocivos do cigarro para a saúde, mas um estudo publicado pelo International Journal of Epidemiology, em 1991, mostrou uma fortíssima relação entre fumo e redução da incidência da doença de Alzheimer. Uma série de outros estudos apareceram depois com resultados em sentido contrário. Muita fumaça, poucas certezas.

Ninguém nunca saberá ao certo. O alimento-herói de hoje pode ser a substância-vilã do dia seguinte. Atualmente a moda é defenestrar os suplementos vitamínicos, estudos recentem apontam que se trata de uma medida inócua para a maioria absoluta das pessoas. Maravilha. Já ingeri 947.654 cápsulas de vitaminas e agora a ciência descobre que só serviram para vitaminar o faturamento da indústria farmacêutica?

Talvez seja apenas uma questão de moderação. O consumo exagerado de álcool destrói o fígado, mas meia taça de vinho tinto por dia pode ter efeitos benéficos para o seu coração.

Voltemos à estrela desta crônica, o alho. O livro do Dr. Watanabe trazia uma lista interminável de benefícios do alho. E não me recordo de nenhuma reportagem falando dos riscos do consumo desse bulbo branco, à parte o mau hálito, claro.

Mesmo com tantas propriedades terapêuticas, não tive coragem de beber o tal concentrado envelhecido de vinagre e alho. Se o cowboy de Marlboro viveu até os 85 anos fumando, é possível que eu viva muito também sem ter que tomar uma bebida tão bizarra.

Minhas sinceras desculpas, Dr. Watanabe.