Quando crescer... vou ser Escritor!

Quando crescer... vou ser escritor!

Meu nome é Eduardo Filho. Tenho 13 anos e estou a cursar o 8º Ano numa escola pública. Sou filho de Eduardo e Maria. Meu pai é Pedreiro e minha mãe é enfermeira.

Sempre que pode, meu pai traz livros pra mim. Ora ele compra, ora ele ganha de um professor universitário que está ampliando seu acervo e a desfazer-se de alguns itens mais antigos. (Nas duas semanas meu pai me presenteou com verdadeiros tesouros: Hamlet, Viagem Ao Centro da Terra e Spharion. Fiquei louco ao terminá-los. É tanta coisa incrível a se desvelar em cada página lida, em cada capítulo passado...

Semana passada acompanhei Axel e seu tio, o Professor Lidenbrock, num empreendimento arriscadíssimo: ingressar nas entranhas deste planeta tão antigo e sofrido. A gente topou, pelo caminho, com problemas de diversas ordens. Mas, ao fim dessa aventura de quatro vidas (a contar com o nosso guia, João Bjelke,* tivemos nossos rostos e nomes estampados em jornais do mundo inteiro!)

Com Dico Saburó eu passei por algumas doses (fortíssimas!) de estresse. Buscávamos por pistas concretas sobre o assassino conhecido apenas por “Spharion”. Eu vi Dico nascer! E também acompanhei seus passos aos longo das mais de cem páginas. Testemunhei a quedinha de Dina, irmã de Dico, pelo jornalista Daniel, digo, Pedro. (Nossa! Cismei que seu nome era Cristiano!)

Por essas – e tantas, tantas outras! – tenho a impressão de ter nascido há séculos. Há pouco mais de 10.000 anos. Eu sei o quanto pesa o discurso de Shakespeare sobre a formação machadiana! Dom Casmurro e A Cartomante, pessoas tão invulgares, me revelaram isso num encontro. Claro que, até que me fosse permitido ter um contato mais pessoal, mais próximo a eles, tive de penetrar na névoa, tentando desfazê-la. E, após muita tentativa, quase a me dar por vencido, eis que a verdade me foi revelada. O Bruxo do Cosme Velho houvera tido contato com o dramaturgo renascentista, sim! E disso eu estou certíssimo! Porque, numa outra vida minha, eu pudera vê-los nalgum canto daquele salão, papeando sobre o poder transformador da literatura. Que resiste ao próprio tempo, esse Senhor sobre si mesmo. Sentado, movente, passante, intermitente. Gente tornada História além do tempo histórico – e além...

Não, não estou louco não. O que Sinuhe, O Egípcio dissera acerca de, ao fim de sua vida, voltar a ser criança de novo em casa de seus pais, andar de mãos dadas com Mineia nas ruas de Babilônia, entre outros feitos seus, foi a mais pura verdade! Sim! Eu estava lá! Como não poderia haver de estar? Tenho acompanhado esses imortais bem de perto, com eles à minha frente, uma hora antes de dormir, toda noite... Como se eu estivesse a me preparar para as viagens mentais, por mundos oníricos, que me aguardam – não sem antes preparar-me com os devidos cuidados (levantar todas as informações possíveis acerca desses mundos).

Ao longo de meses tenho notado (e anotado) que o diálogo (já bem velho, porém, sempre renovado) entre escritor e leitor é uma espécie de corrente de um elo só. Que, entretanto, é formado por outros elos menores. Há, entre ambos, uma espécie de cumplicidade, de contrato automático. Que, longe de ser nocivo, gera lucros (não necessariamente em termos financeiros, não) utilizados ao bem da humanidade. Troca de experiências gratificante, essa conversa entre os que escrevem e quem os lê fortalece essa força incansável que é a literatura, “a arte da palavra”, interessante definição para um termo tão controverso ou seja, ainda sem uma definição exata.

O trabalho do escritor, bem como o do leitor, bem pode ser comparado ao de meu pai. Papai constrói casas, reforma algumas outras e não conhece tempo ruim. Faça chuva ou faça sol, lá está ele, com ou sem seu ajudante. E o escritor, munido de caneta, lápis, papel – atualmente o computador pessoal já se tornou a ferramenta mais utilizada por inúmeros autores –, às vezes sob pressão de alguma editora, pode, em virtude disso, passar dias sem dormir. Para tentar extrair o melhor de si e levar sua voz, seja disfarçada sob a de uma ou mais personagens de um romance, uma novela, conto etc., e ir discursar onde não se pode falar (por conta da censura desmedida, advinda dos Donos do Poder). Os escritores são guias com suas velas, lanternas, seus faróis potentes, sobre as sendas da escuridão e da falta de esperança humana. E nós, leitores, tendo ciência disso, cumprimos o nosso papel de auxiliá-los nessa difícil tarefa de, apesar de nossa brevíssima existência humana, qual estrela solitária no céu, iluminar caminhos pouco ou nunca dantes trilhados, navegados ou mesmo abandonados (pelos viajantes que, por motivos de força maior – ou não – simplesmente sucumbiram ante as trevas dessas trilhas. Ou resolveram desistir.)

Meu pai e minha mãe, por mais que tentem não influenciar em minhas decisões com relação à profissão que desejo seguir quando adulto, ainda que não o saibam, têm forte influência sobre mim. Pelo exemplo que têm me dado desde que me entendo por gente. Se meu pai constrói e reforma casas, garantindo aos outros um teto para proteger suas cabeças e suas famílias, minha mãe, por seu turno, cuida da saúde de tanta gente, no hospital que trabalha há vinte anos. Não me vendo como alguém à altura dos dois, pela minha dificuldade em levar a cabo trabalhos pesados (levantar paredes etc. e lidar com estancamento de sangue, por exemplo), penso, há um bom tempo, em ser escritor. Principalmente pela facilidade com que escrevo e assimilo os textos que leio. E, se antes eu queria crescer para escrever, agora mudei de ideia. Desejo, a partir de aqui e agora, escrever para crescer.

Wellington V. Fochetto Junior

NOTA

* Contei, para tanto, com a edição da CODIL – Companhia Distribuidora de Livros São Paulo (1 ed., 1970). Que, mais tarde, veio a ser publicada pela Editora Hemus (São Paulo). Por essa mesma editora consta que a tradução é de José Alberto Fomm Damásio. Busquei pela autenticidade dessa informação no blog “Não gosto de plágio”, de Denise Bottmann, por razões óbvias. Nenhuma ocorrência com o nome do tradutor foi registrada. No filme original de 1959 (Dir. Henry Levin) o guia é chamado Hans Belker.