A ARTE DE DIZER UMA COISA QUERENDO DIZER OUTRA

O homem é racional por duas razões: primeiro porque pensa, depois porque, através da linguagem, transmite seus pensamentos a seus semelhantes. Mas fora essas qualidades que nenhum outro ser possui num nível assim tão elevado, o homem é também capaz de fazer-se entender dizendo coisas de modo indireto, por ironia ou eufemismo, considerando que desviar-se de palavras nuas e cruas é uma questão de educação e respeito pelo próximo, se bem que o "próximo" nem sempre tem a inteligência suficiente para entender o real sentido das palavras.

Numa das primeiras vezes que fui procurar emprego, tive de submeter-me a um teste e uma entrevista, durante a qual o examinador olhava tanto para mim quanto para as páginas de minha carteira profissional. Havia muitos outros candidatos pretendentes ao cargo, e todos tivemos de esperar do lado de fora pelo resultado da conversa, tendo as carteiras profissionais ficado na mesa daquele homem impiedoso. Por fim veio um funcionário com todas as carteiras numa caixa de papelão, pegava uma, chamava a pessoa pelo nome e dizia apenas: "aguardar telegrama". O cara pegava a carteira e ia embora. Chegando a minha vez foi a mesma coisa, coloquei a carteira no bolso e fui para casa na esperança de que logo receberia um telegrama para trabalhar naquela empresa. Pura ilusão. Só um bom tempo depois entendi que aquele "aguardar telegrama" na verdade queria dizer: "Nada feito, você não foi aprovado para preencher o cargo".

Até eu alguma vez tenho me utilizado desse tipo de conversa oblíqua. Há muitos anos, quando eu andava mais duro do que hoje, eu parava na porta de uma loja, ou dava uns passos adentro e ficava olhando um ou outro artigo que me interessava. Vinha um funcionário todo atencioso, eu perguntava o preço da coisa e depois dizia: "Amanhã eu passo aqui e levo". Mas saía na certeza de que não compraria aquilo tão cedo.

Aliás, a palavra "amanhã" é muito útil para fazer promessas sem a real intenção de cumpri-las. "Amanhã eu ligo pra você". "Me empresta aí cem reais que amanhã eu te devolvo". É preciso uma certa perspicácia para entender quando o "amanhã" é sinônimo de "nunca".

Sabemos que fazer videos pornô com mulheres de menor idade é crime que pode dar cadeia. Quem (como eu, que também não sou de ferro) já deu algumas espiadas nesses filmes pode ter notado uma mensagem no início do site: "Todas as modelos aqui apresentadas têm mais de 18 anos". Com isso, o "cineasta" quer assegurar ao usuário e aos homens da lei que não está trabalhando com menores de idade. Tudo bem, é correto que assim proceda. Porém o que chama a atenção é a palavra "modelo". Ser modelo é a aspiração de muita menina-moça, tirar fotos com roupas da moda, fazer comerciais, ostentar a beleza do rosto em capas de revista, etc. Mas os que fazem os videos pornô precisam completar aquela frase de advertência: "Todas as .... aqui apresentadas têm mais de 18 anos". Que palavra vão colocar? Modelos, é claro, pois é preciso respeitar aquelas mulheres lindíssimas. Para não chamar de "putas" chamam de "modelos".

A expressão "ler nas entrelinhas" adapta-se bem ao propósito deste texto. As pessoas interagem através da comunicação. Se, por um lado, um mal-entendido nunca é conveniente, também é importante que se entenda o verdadeiro sentido de uma frase ou de uma simples palavra. Afinal, o propósito do emitente é ser cauteloso, para não criar uma situação embaraçosa.

Egon Werner
Enviado por Egon Werner em 21/07/2015
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