E Se Não Fosse a Maçã?

Há muito mais entre céus e terras
do que supõe a nossa vã filosofia.
Shakespeare

Tenho uma amiga filósofa que se diverte em me pôr pra pensar.
Fiz-lhe uma gentileza e ela disse que eu era um anjo. Retruquei que não, que anjo não tem sexo.
- Então, como nascem os anjinhos? - quis saber.
Dou corda. Respondo que Deus os cria. E que nós, filhos de Eva, só nos reproduzimos de outro modo por causa do pecado original.
E ela, cutuca, provocando:
- E como é que seria o tal do crescimento e multiplicação de Adão e Eva, se não fosse a cobra? A das escrituras, por favor, não pense bobagem!
Sei lá, se deveria estar aqui, me arvorando a intérprete divina mas, vá lá. O bom de escrever é isso. O que não se sabe, inventa-se.
O Criador já deu uma pista. Ao fazer Eva de uma costela de Adão, penso que de costelas de Eva se fariam os filhos de Adão, embora eu ache, sinceramente, que essa conversa de costela é erro de tradução das escrituras. Poderia ser um apêndice... Quem sabe, se antes de se casar, Adão não teria dois? Mas, é estranho. Como crescer e multiplicar, retirando do corpo ossos ou vísceras importantes? Minha mãe, coitada, com sete filhos, sete costelas a menos, andaria curvada, o pulmão desprotegido...
Por outro lado. Os nascimentos se dariam de forma tranquila e sob anestesia geral. Sem dor, nenhuma chance de erro, sem cicatriz. Nada de barrigões antiestéticos, estrias, dores nas costas, bolsas rompidas, partos sanguinolentos e sofridos, gritaria, palmadas no bumbum do neném...
Sexo não faria falta, pois sem a maçã, não teríamos conhecido o pecado... Viveríamos no paraíso, nada de trabalhar para ganhar o pão.
Claro que, como diz o ditado, “a precisão é a mãe da invenção”. Sem necessidades, não evoluiríamos. Eternas crianças, sob as barbas do Pai. E, uma coisa é certa: ninguém daria a mínima.
Brincadeiras à parte, sou algo mais pragmática em minhas crenças.
O que eu acho mesmo? Que a teoria criacionista é apenas um conjunto de lendas místicas que visa explicar nossa índole pecadora. E nos levar à culpa e penitência.
De qualquer modo, sempre é divertido conjeturar sobre isso e, cá, entre nós, saí no lucro. Imagina se ela me pede pra explicar como se reproduzem os diabinhos?

 
Texto publicado no Jornal Alô Brasília de hoje, reeditado do texto homônimo publicado neste Recanto das Letras em 10/03/2009.