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KLAU – MINHA EX-NAMORADA ÍNDIA DA AMAZÔNIA

                Klau, tem o perfil perfeito. Cabelos longos e negros, que descem sobre os seus ombros, cobrindo os pequeninos belos seios... pele vermelha, franzina, magra, delicada, estilo mignon... o que lhe dá destreza e rapidez nas atividades diárias agora em sua nova vida na cidade ou a correr no campo, nos bosques, nas matas.

                Klau e seus lábios finos... que tanto entoam músicas que tecem e crescem sua melodia cortante... como asas em adejo, de pássaros cantantes distantes... ou insetos que brilham e trilham a mata... entoam cicios... murmúrios enlanguecedores...

                Klau, possui vinte e dois (22) irmãos e irmãs e o pai ainda é vivo, lúcido e bem forte. Aprendeu a usar o machado e o facão – herança de homem branco. As irmãs aprenderam, como toda mulher, a gostar de um espelho... Ah! E o melhor, é conversar com sua mãe tão inteligente e risonha... só em Francês, embora ela fale ainda muitos dialetos indígenas, um pouco de Inglês, um pouco de Espanhol e também belas frases em Português.

                Bem, como se vê, caro leitor... eles vivem na Amazônia, bem perto da fronteira com outros países. E agora, os pais veem os filhos e filhas, netos e netas, deixando a mata e também a cidade natal que escolheram para residir - com parte da população indígena e parte do povo de raça branca, mestiça, mameluca, negra, cafusa, etc.  - para adentrarem mais e mais pela região central deste imenso país chamado Terra Brasilis – Pátria Amada Brasil. A nação que construímos e tanto amamos para sempre... embora muitos filhos partam para terras distantes...

                Os filhos homens (irmãos de Klau) enfrentam um dilema e uma ou duas provas de coragem : participar dos ritos sagrados da aldeia – ritos de passagem de curumins para guerreiros... aliada à vontade de também alistarem-se no Exército ou Marinha ou Aeronáutica, ao completarem dezoito (18) anos – como todo jovem brasileiro do sexo masculino.

                O rito de passagem de curumim para guerreiro, ocorre antes. Familiarizados com as atividades da tribo, são treinados para sobreviverem na selva. Exímios caçadores e pescadores, sabem utilizar muito bem seu arco e flecha, sua lança... praticando muito, seus saltos acrobáticos e sua dança (em muitas ocasiões – festivas ou fúnebres... ou para crescer os grãos... ou para chamar a chuva... ou para adorar a Deus Criador de todas as coisas, astros e seres...)

                Klau apegou-se à mim, do seu jeito, no instante em que nos vimos e sorrimos e ficamos encantados... eu, admirei logo o seu jeito de espanto. Seu encanto, como que de madressilvas... e acho, que as penas de aves que usava... foram sim, um atrativo à parte... Ela, gostou desse meu jeito comunicativo. E também, curioso de querer aprender mais e mais. E de me esforçar e fazer, realizar, conhecer e lutar para ser... Mas, na verdade, o que rolou foi aquela simpatia imediata... aquela reação química que eu e você conhecemos muito bem, embora às vezes nem saibamos como explicar...

                Klau, traz sentido para muitos de meus versos... pois, ’’pela mata sublevada... ser livre tornar-se-á (para sempre e/ou novamente...) algo bem irresistível...’’

                Klau, rememora a fogueira crepitando e a lenha chorando sendo jogada no fogo... Ah! Sim caçamos, pescamos e colhemos frutos na mata... tomamos banho de cachoeira... nadamos no rio... e nos olhamos com ternura nas noites de lua em seu brilho... na sombra das águas... no meio das Vitórias-Régias... Reinventamos estratégias para não sermos caçados por onças e afastar serpentes...

                Klau e seu brilho nos lábios... vermelhos com o fruto da amoreira , pitanga e de outros... que aqui na cidade grande, nas enormes metrópoles, ainda são quase que desconhecidos... lábios que tocaram os meus levemente... meio que inocentemente, nos ritos de agradecimento e presságios do início...

                Klau viajou pra Belém do Pará e pegou sozinha sua passagem comprada por mim (on-line, pela internet...) indo diretamente ao guichê do aeroporto, no dia de sua viagem... Klau se deu bem com a tecnologia, pois aprendeu a utilizar torpedos SMS e esta era a forma como nos comunicávamos... embora antes brincássemos de sinais de fumaça... ou no rito e frisson dos tambores...  e acho mesmo, que ela até aprendeu a usar o aplicativo  whatsApp, antes de mim, alguns meses... rs s.

                Klau viajou sozinha e fez uma parada em SP, trocando de aeronave, antes de ir ao ES me encontrar no aeroporto... (que felicidade foi revê-la...) e claro, ela já tinha vindo a MG e ao RJ, de carro, cuidando de duas (2) crianças de um casal de médicos... e assim, nos vimos felizes, nestas oportunidades...

                Klau gostou da praia. Klau me ensinou umas músicas novas e/ou antigas... e me ensinou medicina indígena algumas vezes... me mostrando um espinho que atua um pouco como o Curare... sedando... Ela me deu aulas sobre Botânica, flora e fauna e natureza... e eu, também não fiquei atrás, adepto que tinha sido do vegetarianismo e da cura e saúde pelo poder das plantas...

                Klau me amou! Do seu jeito, sem beijo nos lábios... sem frêmito ou vórtice... mas como uma meiga e singela flor do meio da floresta mais densa... com suas cores de pétalas neons em sua fluorescência... Com poucos, mas afiados espinhos... Sim, ela me amou e me fez ser parte daquela floresta... e sua arte meio que me enfeitiçou – não fosse esta palavra ‘’enfeitiçar’’conotativamente e denotativamente, meio que espúria e inglória e ferina...

                Sua arte na dança... seu jeito de moça e mulher e menina criança... sempre me alcança e me abraça e me leva tão longe... lembrando o voo da ave que paira distante no horizonte cíclico... onde há nuvens de chuva ou gelo, raios e trovoadas fortes... Oh! Cirros e nimbos... vislumbres... nas réstias de sol que iluminam em delicados fachos e fechos... fechando e deixando meu corpo planar sobre o despenhadeiro... de forma suave e lenta e mágica... na reprimenda dos ventos que agem e balançam as folhas das árvores na selva... Oh! E como instigam uma nova cantiga, no murmúrio das águas bem claras que tanto fascinam e nos lembram as lágrimas ou os espelhos (semi)turvos que nos alucinam num êxtase (s)em febre... curare...amora ou ameixa... ervas aromáticas... ou sonhos bons, alucinógenos e/ou tristes... nas tardes pelas quais passamos juntos, vivendo um novo sentido pra tudo... para as palavras: paixão, ilusão, amor e calor... (rubor em intensidade...) felicidade ou saudade...

                Klau, faz todo o sentido... pois sem subterfúgios, meandros, enganos ou outros artifícios... ela é o que é... e basta olhar para os seus doces olhos e ver um brilhinho... ou o negror da noite, da mata, do açoite andarilho... que teima em mexer com a ternura e/ou com a libido... em meio ao carinho e amor que a tudo antecede... basta olhar pros seus gestos e se derreter todo...

                Klau, eu decidi escrever, para não esquecer... pois poetas desenham os seus poemas em frases curtas de sonetos ou em versos brancos e livres... ou em frases com as mais longas narrativas... (sim... temos estas prerrogativas ilustres... re-ensinadas e reaprendidas... nas academias, nas universidades... na vida sofrida ou amável... pela qual passamos tão célere...)

                Klau, você ainda vive... e sempre viverá em minha lembrança... mas te perdi e te deixei ir para sempre... pois como um bichinho arisco, indomável... vi e aprendi que você precisa estar livremente em seu habitat... e eu não poderia nem saberia nunca, aprisionar este seu belo canto e encanto e imagem... Não, pois é mesmo algo impossível! Nem numa foto ou gaiola ou numas grades de um zoológico, é lógico... você morreria de sede ou fome ou frio... pois precisa voar e correr... com os seus pés descalços... pelo mais lindo arboredo selvagem...

                Lembro, que eu que vivi assim algumas vezes... como que numa tela de pintura... ou grade... sendo apreciado, visto, tocado... pelos silvícolas da tribo ou outros vindos de longe, para ficar ao menos um só instante, diante da minha presença... mas ali eu fui aceito... e ali eu fiz meu mundo e fui imensamente feliz... Oh! E tu me ensinaste os ritos, os gritos, a dança da chuva e dos ancestrais distantes, mais de mil vezes... com paciência, bondade, amor e ternura e candura...

                Nosso Brasil é a Pátria Gentil e Amada, que é feita por todas as tribos e raças... e esta miscigenação, mesmo assim, não afasta de ti os olhares de todos – adultos e crianças, jovens e idosos... pois, ao caminhar comigo nas ruas, nas praças, na praia ou quando subimos a pé a montanha... os olhos de todos à sua volta, sempre se voltam pra ti um instante...

                Klau, seus traços denunciam de longe, a suave beleza e a leveza da pureza da mais fina e primitiva raça deste imenso País que é feito por todos... pois a história reza, através de documentos oficiais, de cartas escritas pela ocasião do descobrimento, como os Portugueses ficaram de queixo caído com os primeiros habitantes desta terra maravilhosa que aqui encontraram...

                Klau, você aprendeu a escrever relativamente bem nosso idioma. Aprendeu Matemát(g)ica, Ciências, História, Geografia... tudo... pois estudou no seu próprio dialeto e em Português, nos livros cuidadosamente preparados pelo Governo, para as crianças e jovens de todas as partes da nação...

                Acho bonitinho você querer aprender Enfermagem e quem sabe Medicina, em breve... e eu estarei aqui, sempre te apoiando e ajudando em minhas orações intercessórias, pois aquele dia, decidimos não mais nos ver, ao menos por enquanto... ( e você – como indígena... tem o gênio forte... e quando decide alguma coisa... já sabe... rs s). Bem, eu também voltei ao meu outro habitat... Mas, como sou metade fera e bicho... metade homem culto... ainda conservo este meu velho jeito índio – fruto também de meus antepassados maternos... e deste encontro ao seu lado... que forjou um lado do meu caráter e personalidade que até então eu desconhecia, mas estava aqui guardadinho em meus genes...

                Ufa! Escrevi tanto... e sei que você jamais leria (ou lerá) tudo... pediria (pedirá?!) para que eu corte longos trechos... um tanto assim... de partes consideradas supérfluas... (pois você, como eu às vezes... ama também a concisão e a clareza...) mas em verdade, em verdade te digo... que vai ficar assim mesmo, pois eu nuca releio o que escrevo, a não ser para decorar e me emocionar com o que eu fiz... mas nunca, nunquinha mesmo... para cortar este ou aquele trecho longo... etc e etc. (rs s)

                Klau, aprenda mesmo mais e mais e mais coisas... que sejam mesmo benéficas para você e para o seu e o nosso povo carente e sofrido... Ah! Quem sabe, um dia desses, você opera outro de seus milagres... Só que agora, com bisturi, agulha e linha... seringas, injeções, etc e etc e etc.

                Klau – minha eterna meiga e bela namorada índia da Amazônia e da floresta... derramo sobre você estas pétalas de elogios... que são como os belos cicios da mata... correnteza de rio... raios de sol na luz da manhã ou no entardecer enternecedor... como você tanto gosta...

                Klau, um último pedido para sempre: Por favor, lembra-te de mim muito mesmo... Sim... lembra-te de mim... até o fim... beijo.

                                            x-x-x

MSCF - GV (Cidade Jardim) MG.
December 22nd, 2015. 22:22h

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( livro inédito = "Crônicas Vivas e intempestivas" )
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MÁRCIO SÉRGIO CASSIANO DE FREITAS
Enviado por MÁRCIO SÉRGIO CASSIANO DE FREITAS em 05/01/2016
Reeditado em 31/03/2021
Código do texto: T5500878
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
MÁRCIO SÉRGIO CASSIANO DE FREITAS
Governador Valadares - Minas Gerais - Brasil
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MÁRCIO SÉRGIO CASSIANO DE FREITAS